quarta-feira, 17 de abril de 2013

Nada

Mariana dormia de boca aberta. Era a coisa favorita de Caio a seu respeito. Ele aprendeu isso depois de muitas noites acordado, só olhando enquanto ela dormia.

Podia-se dizer que era uma insônia seletiva adquirida, já que Mariana odiava manifestações de carinho e esse era o único momento em que ele podia violar essa regra, que era muito mais do que clara entre eles.

Na verdade, não é que ela odiasse. Ela apenas não as considerava apropriadas para o tipo de relacionamento que tinham.

Nenhum.

Caio surgiu em sua vida logo após o fim de um namoro longo e complicado. Tanto o relacionamento quanto seu término.

Ele era famoso por ser um cara mulherengo e isso logo a atraiu. O que ela menos precisava então era drama. Tinha que ser fácil, tinha que ser leve, tinha que ser só sexo.

E foi.

E foi bom.

E foi o melhor.

E continuou sendo. Durante um ano, mais ou menos, Caio e Mariana se viram sempre que quiseram. E eles queriam muito.

Viraram melhores amigos. Ela contava pra ele sobre tudo, sem perceber toda a intimidade que já tinham. Ele chorava com ela como se fosse aquele único amigo com quem está tudo bem ser fraco.

Mariana e Caio eram muito parecidos. Riam muito sempre que estavam juntos, tinham mil piadas internas e todas as referências pra terem conversas chatas que só faziam sentido entre eles.

E o sexo.

O melhor sexo.

Mas não era apropriado em um não relacionamento que se demonstrasse carinho. Então Caio aprendeu a ficar acordado sempre depois de transarem. Mariana era do tipo que dormia em seguida. Dava as costas e apagava mesmo. E depois virava de lado. Era quando ele a observava.

Ela dormia de boca aberta.

E tinha uma mecha de cabelo que insistia em cair dentro de sua boca quando ela respirava forte. Ele gostava de tirar aquela mecha e acomodá-la bem atrás de sua orelha, só pra passar a mão delicadamente em seu rosto. De leve, bem de leve, para não acordá-la.

Até porque seu sono era leve. Especialmente esse. Ela dormia rápido, mas acordava do mesmo jeito. Essa coisa de querer se arrumar pra ir embora. Ou pra que ele fosse embora. Não era deles essa coisa de passar a noite juntos.

Caio sabia que não era nada pra Mariana. Mas já fazia tempo que a recíproca não era verdadeira.

Nunca disse nada por causa do acordo tacitamente estabelecido. Eles não eram nada. Não deviam ser nada. Ela não precisava disso.

E isso não saia de sua cabeça. Enquanto a observava dormir, tentava criar coragem pra dizer que não queria mais daquele jeito. Então Mariana fechou a boca. Era o primeiro sinal de que acordaria em seguida.

Ele fechou os olhos. Fingiu dormir.

Ela abriu os olhos. Tinha tempo que Mariana fingia dormir pra não ter que conversar com Caio depois do sexo. Ela não queria ter que contar pra ele que daquele jeito não dava mais. Que o via diferente. Queria diferente. Ela estava cansada de ser só uma grande foda?

Mariana queria ter coragem.

Pra quebrar suas próprias regras.

Ela não aguentava mais fingir.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Bens

Sempre que um relacionamento chega ao fim parece que se abrem alguns universos paralelos. Três, ao menos, com certeza. O primeiro se baseia em um. O segundo se baseia no outro. O terceiro, na falta de nome melhor, poderia ser a verdade.

Quando Lígia e Raul se divorciaram, parecia impossível imaginar um mundo em que os dois fossem o casal perfeito.

O processo demorou um tempo, mas pra quem tava de fora, foi do nada. Da noite pro dia, eles deixaram de ser melhores amigos que conversavam sobre tudo pra ser aqueles loucos que brigavam pela poltrona do escritório.

A maldita poltrona do escritório.

E nem era uma poltrona bonita. Falando muito honestamente, aquela talvez fosse a poltrona mais feia da história da decoração moderna.

Sequer era confortável.

Servia mais de cabideiro, estante e suas variantes do que como poltrona propriamente dita.

Mas lá estavam os dois brigando por ela.

Lígia e Raul se conheceram na faculdade logo se tornaram aquele casal insuportável, que parecia existir como se soubesse de algo que o resto do mundo não sabia.

Coisa de música, superaram toda barra mais pesada que tiveram.

Ou quase.

Ninguém viu acontecer. Talvez nem eles tenham visto.

Acordaram um dia brigando pela poltrona. A poltrona que ELE escolheu, aquela vadia. A poltrona que ELA comprou, aquele egoísta.

A poltrona onde ele percebeu que a amava o suficiente pra pedi-la em casamento. A poltrona em que ela disse sim. A poltrona onde ele planejou a família que teriam juntos. A poltrona em que ela contou pra ele que não podia ter filhos.

Dividiram os livros.

Dividiram os discos.

Dividiram até os amigos.

O problema era a poltrona.

Justo aquela poltrona maldita que nem combinava com nada.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Diagnóstico

Anna acordou enjoada. Na verdade, estava enjoada fazia um tempinho, mas na última semana tinha piorado bastante e naquele dia ficado insuportável.

Justo ela, que tinha fobia de hospitais, admitiu que não daria mais pra enrolar.

Precisava de ajuda profissional.

Chegou no balcão, entregou a carteirinha do plano, a identidade e explicou à enfermeira o que estava sentindo. Estava morrendo, era claro.

Talvez estivesse ali só para que o médico lhe dissesse quando, assim poderia arrumar as coisas e deixar tudo pronto.

Odiava dar trabalho.

- Anna? Anna?

- Eu! Aqui!

Não demorou muito que chamassem seu nome.

- Anna, o dr. Raul irá atendê-la. Por favor, vá com ele.

Dr. Raul. Anna não sabia se queria ser tocada por um Raul. Enfim. Ela também não queria morrer e talvez fosse o caso.

- Anna. Diga, Anna. O que você está sentindo?

- O que eu NÃO estou sentindo, né? Talvez fosse mais fácil começar por aí.

- Como preferir.

- Estou com taquicardia. E um enjoo que não passa. E volta e meia me dá uns calores, não sei de onde vem, ou pra onde vão, porque somem com a mesma facilidade com que vieram.

- E isso começou há muito tempo?

- Uns meses.

- Meses???

- Sim.

- Mas você procurou um médico só hoje?

- Não gosto de hospitais.

- Claro, faz muito sentido.

- Acho que o senhor está sendo irônico.

Mal se conheciam e ele estava sendo irônico. Homens.

- Preciso que você faça alguns exames.

- Por isso odeio hospitais.

- Bom, preciso descartar qualquer doença séria e os sintomas que você descreveu são meio genéricos.

Anna foi levada pela enfermeira para uma bateria de exames. Testaram seu coração, seu cérebro, hemograma completo, urina e até fezes.

- Anna? O dr. está com os resultados dos seus exames, pode entrar.

Como ela odiava os segundos que precediam a entrega dos exames. Especialmente considerando que eles a tinham testado até o DNA.

- Quanto tempo tenho?

- Você não tem nada, absolutamente nada.

- Como assim NADA? Mas e os enjoos, a dor de cabeça, as tonturas, as pernas bambas, o coração batendo...

Anna foi interrompida por seu celular, tocando escandalosamente um alerta de mensagem.

- Desculpe.

Enquanto botava o maldito no mudo, o médico pôde observar seu rosto corar. Aproveitou e levou o estetoscópio até seu peito e observou seu coração, disparado, pular uma batida. Ou duas.

- Namorado?

- OI? CLARO QUE NÃO!

Três. Talvez quatro.

- Hum. Definitivamente. O que você tem é só amor. Ou paixão?

- Hein? Tem certeza, dr.? Certeza que não é uma virose?

Sim. Uma virose seria bem mais fácil de tratar.

E de explicar.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Ex

Piscou a janelinha do mensageiro e Marina viu o nome de Carlos conversando com ela. Era a primeira vez em quase 7 meses desde que se separaram.

- Saudade de você descalça pela nossa casa.

- Você odiava meus pés.

- Eu odeio pés.

- E a casa era minha.

- Eu passava mais tempo nela do que na minha, já via como minha casa.

- Eu passo mais tempo na agência do que em casa e nem por isso considero minha.

- Meu Deus, tinha esquecido como você é exagerada, Marina.

- O que você quer, Carlos? Eu esqueci de te devolver a camisa do Boca?

- Você tava com a camisa do Boca?

- Não.

- Marina?

- Sim, mas não pretendo devolver.

- Saudade de você com a minha camisa do Boca.

- Não vou te devolver.

- Quero te convidar pro lançamento do meu livro.

- Você escreveu um livro?

- Sim.

- Sobre?

- Em grande parte, sobre você.

- Que?

- Você foi um capítulo importante da minha vida. Tomei liberdade poética pra te transformar num livro todo.

- Puta que pariu.

- Que?

- Sou uma bruxa? Um alienígena devorador de almas? Algo tipo o predador? O que você fez, Carlos?

- Tinha esquecido como você era dramática.

- Carlos?

- Você é a heroína, Marina. É uma história de amor. Eu acho.

- Que?

- Eu te amo, Marina. Sempre te amei. Não te amo do mesmo jeito. Mas sempre vou te amar.

- Quando é o lançamento?

- Sábado.

- Ok.

- Mandei o convite pro seu escritório.

- Ok.

- Ok?

- Ok, ué. Até eu ter lido o livro, é ok. Estarei lá.

- Ok. Saudade de você andando descalça pela nossa casa.

- Eu não vou devolver a camisa. Bjs

- Ok. <3

domingo, 17 de março de 2013

Escolhas

João começou a namorar Ana quando ainda estavam no colégio.

Foi com ela sua primeira bebedeira. Consequentemente, sua primeira ressaca.

Com ela, planejou largar o colégio, desistir da faculdade e se juntar ao circo. Viver em uma comunidade hippie, plantar as próprias comidas e ter 3 filhos.

Ana sempre apoiou suas ideias doidas. Mais que isso, sempre foi doida com ele.

Saltaram de paraquedas, de bungee jump, de asa delta. Fizeram malabarismo no sinal pra fechar a conta daquela viagem de 3 meses pra acampar na Chapada.

Ana correu atrás de editora pra publicar seus poemas quando João decidiu que queria ser escritor. Achou quem filmasse seus roteiros quando seu sonho virou o cinema.

Daí o tempo passou, o vestibular chegou e seu pai deixou claro que essa vida sem rumo não era uma opção. Ou ele escolhia um caminho ou deixava de contar com o dinheiro da família.

João escolheu a engenharia.

E deixou Ana de lado.

Ela ganhou uma bolsa pra estudar artes em Barcelona. Mais tarde, parece, passou um tempo no circo, antes de se firmar como uma grande artista plástica em algum lugar da Europa.

João virou engenheiro. Formou-se com a melhor nota da classe, para orgulho de seu pai.

Logo conheceu Mariana, advogada mais jovem a se tornar sócia da firma em que trabalhava. Moça brilhante.

Com Mariana, João juntou dinheiro para comprar um apartamento. Três quartos, pensando na família que queria formar e no escritório que precisavam ter.

Nunca mais jogou malabares.

Ou saltou de paraquedas.

Bungee Jump.

Ou asa delta.

Nunca mais foi ao circo.

Ou pensou em juntar-se a ele.

Nunca mais escreveu poemas.

Ou roteiros para filmes.

Nunca mais acampou.

Ou foi espontâneo.

João agora planejava tudo nos detalhes.

Era um profissional reconhecidíssimo no seu ramo.

Um verdadeiro adulto.

Mas que saudade João tinha de Ana.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Hora extra

Carolina olhou o relógio do celular por hábito. Eram 5 da tarde, mas ela sabia que ainda teria de ficar até tarde no escritório.

Estava no emprego novo há quase 3 meses e, pela primeira vez, era responsável por cuidar do relatório final  do departamento. Muita responsabilidade, mas ela tinha esperado por isso ansiosamente. Sinal de que sua chefe finalmente confiava nela o suficiente. 

Parou pra pegar um copo d'água e uma xícara do café horroroso da máquina, a única bebida que podia consumir de graça, e voltou pra mesa. Olhou novamente o relógio. Maldito hábito. 

Dessa vez tinha mensagem na tela. 

Era Bruno, pra avisar que teria que furar com ela. De novo. Precisava terminar alguns trabalhos na agência. 

Sair com publicitários era como sair com médicos, diziam. Não que ela já tivesse saído com médicos. Ou com publicitários. 

Merda, ela tinha esquecido que tinha marcado com ele. Estava tão focada no tal relatório que ficou feliz até quando recebeu a mensagem da irmã avisando que não passaria em sua casa com filmes e pizza. Não que ela se lembrasse de ter combinado alguma coisa com ela também. 

Carolina tinha passado por muitos empregos detestáveis antes de conseguir a entrevista que a levou ao atual. As amigas a julgavam por isso, mas ela sentia como se estivesse vivendo um sonho e pouca coisa a fascinava tanto quanto o trabalho no momento. 

Era difícil convencê-la a fazer qualquer coisa naqueles últimos meses, dava pra contar nos dedos os convites que aceitou pra beber ou jantar ou ver um filme que fosse. E poucas eram as pessoas que ela queria ver. 

Bruno apareceu sem querer, uma amiga os apresentou. Eram feitos um pro outro, ela disse. Gostavam das mesmas coisas, aparentemente. As conversas realmente eram legais. Basicamente online, já que ambos tinham pouquíssimo tempo pra marcar de se encontrarem no mundo real. Mas eram boas conversas mesmo. 

Ele era engraçado. E parecia bonito pelas fotos. Corpo legal. Não que ela ligasse pra essas coisas. 

Quando saíram a primeira vez, tentaram achar um meio do caminho entre os trabalhos de ambos. Assim ficaria fácil pra todo mundo. Ou menos complicado. Nada chique ou romântico em comer petiscos e tomar cervejas de garrafa, mas quem tinha tempo pra romance?

Não transaram. Deixaram essa parte pra um segundo encontro. Ou terceiro. A verdade é que ela tinha uma reunião no dia seguinte cedo e ele tinha uma apresentação que ainda não tinha terminado de montar. Ia virar a noite fazendo isso. 

Marcaram o segundo encontro. Ela desmarcou. Marcaram de novo. Ele desmarcou. Marcaram de novo. Choveu. Marcaram de novo. E de novo. E de novo. 

Daí o relatório. E ela esqueceu de desmarcar. Tudo bem. Ele estava desmarcando. 

Ela olhou pra tela do celular mais uma vez. Estava feliz com a mensagem. 

Não que não estivesse interessada nele, mas um relacionamento definitivamente não era seu foco no momento. 

Rascunhou a resposta infinitas vezes na cabeça, digitou e deletou algumas outras tantas, até a tela piscar de novo.

- Não fica chateada?

Deu um gole no café horrível - e agora frio - e, finalmente, escreveu. 

- Claro que não. Eu entendo. 

Pontuou com uma carinha feliz e,antes de voltar pro seu relatório, completou. 

- Remarcamos?

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Fé

Debora olhou pra todos os lados, pra confirmar se estava sozinha. Já era tarde, nenhum conhecido por perto. Sentou-se na mureta da igreja na esquina da rua onde trabalhava. Abaixou a cabeça, apoiou-a sobre as mãos e começou a chorar tudo o que estava preso no último mês.

A verdade é que não aguentava mais sorrir e posar de forte quando se sentia tão sozinha e desamparada. Queria conversar com alguém, mas todos os seus amigos estavam distantes. Não só fisicamente, mas de sua realidade. Seria como tentar entender um episódio daquele seriado que você ficou tanto tempo sem assistir.

Começou a perceber o cheiro das velas derretidas. Estava sentada bem do lado do lugar onde as pessoas vão acender velas. Aquele cheiro de cera, do pavio queimado, de esperança, desespero, fé, promessas, tudo misturado.

Queria acreditar em Deus, ou em alguma coisa. Talvez fosse mais fácil, teria pra quem contar suas coisas. Ou pedir. Mas pedir o que, se nem ela sabia qual era o problema?

- Você está bem, minha filha?

Debora tinha procurado rostos conhecidos, mas tinha esquecido da senhorinha que ficava na igreja vendendo as velas na entrada.

- Estou sim. - Disse, enxugando as lágrimas.

- Aqui não é um lugar muito bom pra se estar sozinha a essa hora.

- Eu sei, eu só precisava parar um pouco.Já estou saindo.

- Calma, fica sentada mais um pouco. Também não é boa ideia sair por aí chorando desse jeito.

- Não é nada. Eu tava só precisando botar pra fora um pouco. Às vezes faz bem, né? Dizem.

- Faz. Faz mesmo.

- Sabe, eu acho curioso quem vem aqui, pega essas velas e acende, faz uma prece, uma promessa, sei lá o que se faz, na verdade, e sai daqui esperando ser atendido. Funciona? Nunca vi funcionar. Mas as pessoas saem daqui com uma tranquilidade, como se tivessem passado o problema pra frente, pra mão de outro.

- Não sei se vejo assim, mas acho que você não acredita em Deus, não é?

- Não muito, desculpe. Tenho 27 anos de motivos pra não acreditar.

- Eu entendo. Respeito, até. Tenho 56, trabalho voluntariamente nessa igreja faz 20, desde que casei. Meu marido morreu tem 5 anos e me deixou uma pensão gorda, não preciso me preocupar com trabalho, então posso me dedicar ainda mais a isso. Gosto, sabe? De entregar as velas nas mãos das pessoas como se estivesse passando um pouco de esperança. Elas fazem isso por fé, minha filha. Como você chama?

- Debora.

- Acho que tem um pouco de desespero, sim. Às vezes. Mas não vejo como passar o problema pra frente, vejo mais como aceitar que tem coisas que não dependem só de você e que talvez você não precise carregar toda a responsabilidade do mundo sozinha sobre seus ombros.

- Eu queria acreditar nisso.

- Você é bem nova pra ser tão descrente.

- Será?

- Quer acender uma vela?

- Mas já disse que não acredito em Deus. Não sei nem como rezar, ou sei lá o que se faz.

- Não precisa acreditar em Deus pra isso. Ou rezar. Faz assim. Acende a vela e pensa no que está te atormentando. Olha bem pra chama da vela enquanto isso. Não será um pedido, uma promessa, uma prece. Será um guia pra te iluminar o caminho, pra te ajudar a encontrar isso que você tanto procura.

- Eu quero paz.

- Todos queremos, filha. - Disse a mulher passando a mão sobre os cabelos de Debora como um carinho.

Ela se levantou, ajeitou o vestido e pegou a bolsinha de moedas, em busca de trocados.

- Quanto é a vela?

- Não precisa se preocupar com isso. Essa é por minha conta.

Debora acendeu a vela e deixou pingar aquela primeira gotinha de cera pra fincar sua base ali naquele pedestal. Nunca tinha feito aquilo antes, mas já tinha visto sua avó e sua mãe fazerem. Fechou os olhos um pouco antes de olhar fixamente pra chama e pensar em tudo que a havia levado às lágrimas, àquela mureta.

Não sabia explicar porque estava tão perdida, nem sabia se aquilo tudo faria alguma diferença. Conversar com aquela senhora a tinha deixado mais calma, pelo menos naquele breve momento.

Talvez ela precisasse de perspectiva. Talvez tudo aquilo fosse mesmo passar. Talvez a vela iluminasse seu caminho e tudo fizesse sentido amanhã, ou o tempo que precisasse pra que aquilo tudo fizesse efeito, ela não sabia ao certo.

Ou talvez sua confusão se derretesse com a cera e se misturasse com o pavio queimado, a esperança, o desespero e a fé de tantos outros.

Por enquanto, ela estava mais calma.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Outra

Vadia.

Queria te encontrar pela frente e que você cruzasse o meu caminho só pra eu poder te dizer isso na cara. Que eu te odeio.

Te odeio por estar tão feliz nas fotos com ele. E por ele parecer tão feliz do teu lado.

Porque tenho certeza de que você não é tão burra quanto eu gostaria que fosse e porque você é mais linda do que deveria ser. As pessoas deveriam ser proibidas de serem assim tão magras, altas e loiras.

Te odeio por saber andar de bicicleta e poder fazer com ele todos os passeios que eu nunca fiz por não ter aprendido a pedalar sem rodinhas.

Porque o cheiro do whisky dele não te dá náusea, já que você bebe a mesma marca. E por gostar de carnaval. Eu sempre fugi dos blocos que ele insistia em frequentar e, confesso, muitas vezes fiz ele abrir mão de alguns pra ficar comigo em casa.

Eu podia sentir a frustração nos olhos dele.

Te odeio por ouvir dos amigos em comum que ele nunca esteve tão feliz. E por eu achar que realmente seja verdade.

Porque você talvez seja a esposa do meu marido e a mãe dos meus filhos e a dona da minha casa.

E eu te culpo por isso.

Porque eu já cansei de me culpar.

Vadia.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Redenção

Há mais de cinco anos não pisava naquela rodoviária. Completariam seis anos naquela sexta-feira, pra ser mais exata.

E, se dependesse dela, não teria pisado ali nunca mais.

Desceu do ônibus carregando uma pequena mochila, não pretendia que sua viagem se estendesse além do necessário.

Reconheceu alguns rostos assim que botou os pés na plataforma, podia sentir os olhares curiosos em cima dela. Sabia que sua partida era, mais que um mistério, a fofoca favorita da cidade.

Foi coisa de relacionamento que deu errado, era o que todos diziam. Estavam certos. Só não sabiam o quão errado.

Passou pela banca de jornal onde comprava a mesma revista todo dia 13 de cada mês. Queria aprender como apimentar o relacionamento e fazer com que o marido a visse como uma mulher desejável.

A padaria onde sempre comprava o pão fresco pro café da manhã e a cerveja gelada no fim do dia. Seu marido odiava pão velho e a cerveja no fim do dia era sagrada. Bem gelada.

A pequena clínica do bairro, onde o médico a recebia de quando em quando pra olhar hematomas e eventuais cortes. A enfermeira já tinha virado quase uma amiga, não fosse seu olhar de julgamento toda vez que entrava pela porta de cabeça baixa contando sobre o último acidente na cozinha.

Eles provavelmente nunca acreditaram em suas histórias.

Era estranho passar por cada canto da cidade de onde fugiu e lembrar-se com tantos detalhes da vida de que tentou se desvencilhar, da pessoa que ela queria tanto deixar de ser.

Finalmente, a porta azul da casa amarela. A última casa da rua Carlos, o número 12 descascado do mesmo jeito que estava quando ela bateu a porta atrás de si quase seis anos atrás.

Foi por aquela porta que ele a carregou no colo e disse que naquela casa seriam felizes. E foi na frente daquela casa em que ele a espancou, na frente de todos os vizinhos, que apenas olharam enquanto ele gritava que não admitiria sua traição.

Naquele dia ela perdeu o filho que esperava.

Ela nunca o traiu.

A vizinha da casa ao lado estava trancando a porta quando ela chegou.

- Márcia, quanto tempo.

- Seis anos. Quase.

- Acredito que tenha vindo para resolver a burocracia da casa, ela agora é sua, certo?

- Sim. Creio que sim. Você tem compradores?

- Tem um casal interessado, mas eles fizeram uma oferta abaixo do mercado.

- Venda.

- Você não quer olhar suas opções?

- Não, eu só quero me livrar dessa casa.

- Tudo bem, eu tenho os papéis pra você assinar, se puder vir comigo.

- Ele morreu, né?

- Sim, morreu de cirrose faz uma semana.

- Eu só precisava ter certeza. Os papéis. Vamos?

Agora sim. Ela estava livre.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Adeus

Luisa queria que fosse um sonho e Caio não estivesse dormindo ao seu lado. Depois de tantos anos pensando naquele momento, definitivamente esse não seria o desfecho que ela teria proposto.

Em sua fantasia mais louca, eles finalmente se perceberiam loucamente apaixonador um pelo outro e se casariam. Teriam filhos. Dois. Um menino e uma menina. Ela sabia que brigariam pelos nomes, mas em algum momento concordariam em algo. Ou não.

Mas lá estava Caio e ela sabia que não se casariam. Não agora. Sequer estavam prontos para namorar, ou assumirem que se gostavam.

Caio era seu melhor amigo há tanto tempo e, ainda assim, eram incapazes de conversar de coisas sérias pessoalmente. Tudo que precisavam dizer um pro outro que fosse minimamente relevante era enviado por alguma forma de mensagem eletrônica. E ele tinha precisado dela na noite anterior.

Algo sobre coração partido. Ela, amiga incrível que era, levou seu ouvido, o ombro, os filmes favoritos dos dois e tudo que precisariam para preparar um Amnésia Nuclear, drink de escolha quando precisavam esquecer alguma coisa. Ou alguém. Ou tudo.

Pois tinha funcionado. De alguma forma, ela deletou tudo entre o último Rocky e o motivo para ela estar ali, nua, debaixo de seu edredom. Levantou uma ponta pra conferir se, sim, ele estava igualmente nu embaixo do mesmo edredom.

Em momento algum ela teve a chance de contar pra ele que estava na dúvida sobre uma proposta de emprego. Agora não estava mais. Era a coisa mais séria que já tinha precisado contar pra ele, grande demais pra mandar por qualquer mensageiro.

Decidiu deixar um bilhete.

"Caio,

Desde sempre fomos os melhores amigos que esse mundo já viu. Nunca conheci nessa vida um casal que tivesse relacionamento melhor que o nosso. Só nos faltou ser um casal. Nunca discutimos por nada sério, você sempre me entendeu e esteve do meu lado quando eu não queria que absolutamente ninguém me visse chorar ou ser fraca. E eu sempre estive lá pra te fazer perceber o quanto você era incrível.

O problema é que eu não sei mais como ser sua amiga. Porque eu te amo.

Desculpe. Não sei se essa é a melhor forma de te dizer, mas tampouco sei fazer diferente.

Percebi outro dia, enquanto você me contava sobre a Mariana, Marina, sei lá o nome dela, que eu não conseguiria mais ser seu ombro e te ver escolhendo elas, se arriscando com elas, quando eu estava ali, tão perfeita pra você, só esperando que você entendesse o que eu já tinha entendido.

Não podíamos mais ser amigos. Ou só amigos. Já éramos além.

E o que quer que tenha acontecido ontem me fez perceber que não posso mais estar perto de você.

Recebi uma proposta pra trabalhar em Londres e decidi aceitar. Ficarei um ano lá, a princípio, mas há a possibilidade de isso se estender indefinidamente.

Pensei em te contar ontem, mas você precisava de mim mais do que eu de você.

Eu te amo, mas não estou pronta pra te perder.

Então acho melhor assim.

Lu"

Ela deixou o bilhete em um lugar impossível de ser ignorado e foi embora. As malas já estavam quase todas prontas, antes de ir pra Inglaterra ela passaria uns dias na casa da irmã em Brasília. Esse detalhe ela omitiu intencionalmente. Não queria ter de vê-lo antes de ir.

Aquela carta era sua despedida.

Caio acordou e procurou Luisa na cama, com um sorriso que se estampou em seu rosto antes mesmo que ele abrisse os olhos. Ela não estava mais lá, mas ele achou a carta rapidamente.

Leu em voz baixa e apertou o papel dentro da mão enquanto disse pra si mesmo:

- Eu também te amo.