terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Cena

- Kika? - A voz perguntava do lado de fora do camarim enquanto se ouvia uma batida na porta. - A repórter chegou.

- Pode mandar entrar, obrigada.

A moça loira, já em seus 40 anos, entrou estendendo a mão.

- Oi, Kika. Que prazer em finalmente te conhecer.

- O prazer é meu, Laura. Uma repórter tão renomada quanto você, o prazer é meu.

- Eu achei curioso que você tenha me requisitado nominalmente, na verdade.

- Claro. Entendo sua estranheza. É que o assunto era de extrema delicadeza e eu achei importante que fosse alguém como você a cuidar disso. Alguém talentosa, séria como você.

- Fico lisonjeada.

- Podemos? A peça começa em pouco tempo, ainda preciso me maquiar. Desculpe pedir que viesse assim em um horário tão espremido, mas minha agenda estava realmente...

- Claro, claro. Eu entendo. Vamos.

- Bom, você sabe que eu e o Cássio tivemos um longo relacionamento. Nossa história é antiga.

- E bastante pública.

- Sim. Não. Na verdade, isso é o que vocês pensam. Muita coisa ficou de fora.

- Hum?

- É. Vocês não sabem de tanto quanto vocês pensam.

- Sim?

- É muito difícil pra mim comentar sobre isso, falar abertamente, mas eu acho que é importante eu assumir, não só por mim, mas... O Cássio... Ele me bateu.

- Bateu?

- Sim.

- Não batia?

- Desculpe?

- Não, é que achei curioso o tempo verbal.

- Como?

- Você declarou como se fosse algo que aconteceu uma vez. Bateu. Não algo que talvez tivesse acontecido de forma frequente. Batia.

- Não estou te entendendo.

- Está sim. Me perdoe, Kika, mas eu já havia ouvido os boatos. Entre suas maquiadoras, cabeleireiras e outras pessoas que já trabalharam com você desde a separação. Essa história de que o Cássio talvez tivesse te batido não é novidade. Eu achava que você de repente tinha me chamado aqui hoje pra anunciar algo mais... Interessante.

- Interessante?

- Não me entenda mal. Se eu de fato achasse que essa história era real, eu seria a primeira a pular nela. Mas eu não acho que seja nem de longe verdade.

- Você acha que eu inventaria algo assim?

- Sim, eu acho. Você deve imaginar que eu acompanho sua carreira desde sempre. E é claro que isso implica em acompanhar sua vida também. Você nunca foi exatamente uma pessoa que prezou pela sua privacidade, convenhamos.

- Era só o que me faltava.

- E eu imagino que o fato de eu ser feminista e, talvez, uma das poucas repórteres que ainda é levada a sério nesse meu ramo... Bom, isso deve ter influenciado na sua escolha.

- Eu te chamei aqui porque eu te respeito, Laura. E eu gostaria que você me respeitasse também.

- Claro, e eu estou te respeitando. Estou te respeitando, inclusive, te dando a chance de não insistir nessa história. O que te levou a começar isso? Ele ter sido chamado pra assumir um núcleo na emissora? O livro que ele vai lançar? Ou o noivado?

- Do que você...

- Não se faça de tonta. Você sabe do noivado. Todo mundo sabe do noivado. Até porque a Silvia não é exatamente uma qualquer. Ela é uma jornalista econômica séria. Conhecida, respeitada. Admirável, eu diria. Artigos publicados lá fora, bonita, jovem, bem sucedida.

- Onde você quer chegar?

- Você tem o que? A mesma idade que ela? Talvez uns 6 anos a mais? E está o que? Fazendo esse espetáculo de quinta. Eu não quero parecer desrespeitosa, mas essa peça é uma porcaria. Não por ser teatro independente, é claro que não, mas por ser uma porcaria mesmo. Só isso. E não é como se estivessem chovendo convites pra você interpretar papéis maravilhosos, eu acho que isso aqui deve ter sido seu melhor papel em um bom tempo. O último foi aquele comercial de seguro. Tô errada?

- Eu vou pedir que você se retire. Eu devia ter falado com aquele outro rapaz, aquele que escreve no outro jornal.

- E ele teria escrito sua história. Porque você sabe que ele escreve qualquer coisa, mesmo que ele tenha certeza de que não passa de um boato maldoso, mas eu não. Por que não dizer que o Cássio é gay?

- Que?

- É, se você quer difamá-lo, por que não dizer que ele é gay?

- ...

- Ah, sim. No meio artístico isso não seria um choque. Ou, pelo menos, não o tipo de choque que você quer causar. Mas bater em mulheres... Isso sim. Seria um ruído terrível nesse momento dele. E ainda jogaria por terra a imagem da Silvia.

- Eu não sei do que você está falando.

- Sabe sim, Kika. Qualquer estariágio que tenha estudado você minimamente saberia que, se alguém nesse relacionamento era capaz de violência, esse alguém era você. Ele esteve do seu lado quando você teve seu problema de bebida, quando você desapareceu e disse que estava indo estudar teatro fora. Todo mundo sabe que você se internou pra cuidar da cabeça, mas ele sustentou sua história. A verdade é que foi você que saiu do relacionamento. Você achava que sua carreira deslancharia sem ele? Você tinha um plano? Me explica.

- Eu preciso me arrumar, o espetáculo vai começar daqui a pouco e eu ainda preciso me concentrar.

- Espetáculo. O espetáculo é isso aqui, esse circo que você quer armar. Sabe o que me fode, Kika? E sim, eu disse fode mesmo, já que eu não tenho tempo, não vou conter meu vocabulário. O que me fode é que eu já apanhei. E não de mentirinha, pra aparecer e pagar de coitada pro público, pra ganhar a simpatia dos outros. Eu apanhei de ter ossos quebrados e hematomas extremamente aparentes. Eu apanhei de ter de chamar meu editor pra conversar e trabalhar de casa, pra não dar as caras na redação e dar margem a conversinhas. Eu apanhei de denunciar meu ex-marido, de envolver polícia e advogado. Nem sempre eu trabalhei escrevendo sobre artistas e televisão. Você sabe quem eu sou. Se hoje eu faço isso, é porque eu escolhi. Porque eu cansei de escrever sobre o que eu escrevia. Não me subestime. E não me desrespeite.

- Você pode sair.

- Posso. Mas eu ainda quero te falar algumas coisinhas. Isso que você tá tentando fazer, é por causa de gente que nem você, mesquinha, mentirosa, inconsequente, que tem cara que espanca a esposa, os filhos, e não é enquadrado. Porque as autoridades, quem é responsável por cuidar disso, não acredita em quem denuncia. Nessa merda de sociedade, é bem fácil que as pessoas achem que as mulheres só querem prejudicar um homem de bem. E é por causa de gente que nem você, que fica inventando história, que tem tanta mulher que apanha e se sente desamparada, acha que ninguém vai acreditar nela. Você me enoja, sabe?

- SAI. DAQUI.

- Eu saio. Tô saindo. Espero que você pense bem sobre essa nossa conversa. Você não deve ter um amigo pra te dissuadir dessa idiotice, então pensa em mim como sua amiga. Foca no que restou da sua carreira. De repente você ainda tem o que salvar aqui. Sua dignidade, talvez.

- LUZIA! AJUDA A NOSSA AMIGA A ACHAR A PORTA, FAZ FAVOR? E LIGA PRAQUELE RAPAZINHO QUE ESCREVE PRO OUTRO JORNAL? COMO É O NOME DELE?

- É João Carlos, Luzia. Pera que eu te dou o número aqui. E pode deixar, Kika. Eu vou dar uma ligada pro Cássio e pra Silvia. Faço questão de escrever um especial sobre o noivado deles, sobre esse momento maravilhoso que ele tá passando, sobre esse prêmio que ela deve receber. Acho que vai ser uma matéria maravilhosa.

- Você ainda tá aqui, meu Deus?

- Não, já tô saindo. Ah, sim. Merda pra você. Muita, muita merda.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Banheiro

Naquele dia, Mariana almoçou rápido e voltou logo pro escritório.

Entrou no banheiro pra lavar as mãos e escovar os dentes e percebeu que alguém estava em uma das cabines. 

Silêncio. Algumas fungadas. Chorando, talvez? 

"Deve ser a menina nova", pensou. "Todo mundo saiu pra almoçar junto, só ela foi sozinha."

Sentiu-se mal. Não conhecia a menina o suficiente nem mesmo pra perguntar se estava tudo bem. 

Lavou as mãos rápido e deixou pra escovar os dentes depois. 

Quis evitar o constrangimento para a menina, imagina sair toda inchada, nariz escorrendo, e dar de cara com alguém? 

Depois ela podia convidá-la pra um café, estender a mão, um ombro. Como quem não quer nada, é claro. 

Isso. Mas só depois. 

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Beth almoçou rápido. Na verdade, engoliu a comida. Tinha feito planos pras duas longas horas de almoço que envolviam qualquer coisa menos ser acometida por uma dor de barriga. 

Talvez fosse o remédio que estava tomando. Talvez fosse algo que tivesse comido. E, nesse caso, seriam muitos os suspeitos. 

Mas nada disso vinha ao caso. Ela precisava voltar logo pro escritório. 

Era bom, já que todo mundo tinha ido almoçar junto, então ninguém estaria lá pra ameaçar seu momento. 

Ela não era do tipo de pessoa que conseguia ir ao banheiro com testemunhas. 

"Ainda bem que eu escolhi um restaurante perto", ela pensou enquanto se apressava. 

Confirmou que o escritório estava realmente vazio e correu um pouquinho mais. Chegou ao banheiro e sentiu aquele alívio. 

Ela tinha conseguido. 

Ufa. 

Beth sentou-se no vaso e, antes mesmo que pudesse fazer qualquer coisa, ouviu a porta abrir. 

"Sério? Quem foi a filha da puta que resolveu vir antes? Todo dia elas tiram mais de duas horas de almoço. Todo dia!"

Prendeu a respiração e concentrou-se em não fazer barulhos, mas não aguentaria muito tempo. 

Fungou. "Merda de resfriado". Ok, a colega já sabia que alguém estava lá. 

"Vai embora vai embora vai embora vai embora VAI EMBORA FILHA DA PUTA você nem entrou em cabine nenhuma, eu tô te ouvindo daqui, tá fazendo o que no banheiro esse tempo todo? Affe, será que ela entrou aqui pra chorar? Pelo amor de Deus, que hora errada pra vir aqui chorar, colega..."

Três minutos. Talvez menos. Foi o tempo que alguém ficou do lado de fora. Mas, pra Beth, podiam muito bem ter sido cinquenta. 

Ouviu a porta abrir e bater na sequência. 

Ela teria esperado um pouquinho, só pra se certificar de que estava mesmo sozinha. 

Mas ela não tinha mais tempo nem pra pensar, então...

Foda-se. 


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Qual é a nota?

- Amor?

- Na cozinha.

- E as crianças?

- Com a minha mãe.

- Cara, você não acredita. Lançaram uma versão masculina daquele aplicativo que avalia os caras.

- É mesmo?

- Aham. É pra você saber se as suas amigas são piranhas na cama.

- Nossa, que produtivo. Você tá à caça?

- Claro que não, né Cecília? É pela brincadeira.

- Sei.

- Ah, poxa. Não pode mais brincar?

- Você achou que era brincadeira quando descobriu que tava com nota 6,5 no outro aplicativo?

- Isso não vem ao caso.

- Assim como não veio ao caso o fato de você namorar comigo desde o colégio e sua única outra namorada ter sido a Joana, naquele ano em que eu fiz intercâmbio e você achou melhor terminar pra não sofrer com a minha distância. Adiantou?

- Acho que estarmos tendo essa conversa agora diz que não, né?

- Pois é. Pensei que não.

- Você não entrou naquele aplicativo?

- Não, Paulo. Eu tenho 2 filhos. A Cláudia vem me ajudar só 3 dias por semana. A gente tem babá só nos dias em que a gente resolve transar fora de casa. Eu trabalho. E faço a comida praticamente todo dia. Eu tô pouco me fudendo pra esse aplicativo.

- Você me irrita, sabe? Com essa sua praticidade.

- Ok.

- É sério.

- Tá bom.

- O que você tá fazendo?

- O jantar.

- Sabe que tem uma avaliação sua no tal aplicativo?

- Mentira. Deixa eu adivinhar. Foi você quem fez?

- Foi. Hahaha...

- E você disse que eu sou uma piranha?

- Claro que não! Você é a mãe dos meus filhos! Coloquei que você transa de luz apagada e curte papai-e-mamãe. Nada de boquete.

- Que maravilha.

- Você tá sendo irônica?

- Na verdade eu tô imaginando como seus amigos estão pensando que é sua vida sexual agora. Tipo. Uma baita merda, né? Vai ser ótimo o clima na próxima reunião aqui em casa.

- Porra, nem tinha pensado nisso. Pera. "Vadia". "Cachorra". "Curte tapas". "Transa de 4". Pera... Tá. Agora sim.

- Ficou parecendo uma atriz pornô.

- Né?

- Vai ser ótimo na próxima reunião do colégio das crianças.

- Caralho, Cecília! Eu não dou uma dentro! O que você quer que eu faça?

- Que você pare de perder seu tempo com idiotice. Continuo pouco me fudendo. Vai lá e bota a mesa que o jantar tá quase pronto.

- Tá...

- Ah...

- Que?

- Hoje eu quero de quatro.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Inimigas

- E aí?

- E aí o que?

- Me conta!

- O que?

- Sobre aquela menina lá, que tava falando de você, das amigas e tal.

- Ah!

- Então?

- Sei lá.

- Parou?

- Não sei.

- Você foi lá tirar satisfação?

- Não, eu tinha um cupom pra batata frita extra naquela lanchonete perto do trabalho.

- E daí?

- Me pareceu mais importante aproveitar do que perder meu tempo com briga besta.

- Não entendi.

- Qual parte?

- Ah, até pouco tempo você tava me contando sobre o quanto ela te difamou, que você quase perdeu seu emprego por causa disso, o namorado, que sua vida tava indo pro brejo.

- Pois é.

- O que mudou?

- Eu entendi que eu não tava na quinta série.

- Oi?

- É. Não era ela que tava me causando problemas no trabalho. Ou no relacionamento. Ou na vida. Era o tempo que eu perdia com algo que deveria ser ignorado. Pensa bem. O que essa menina sabe de mim?

- Nada?

- Nada e mais alguma coisa ou outra que ela ouviu falar de sei lá quem que leu na minha rede social por causa de um compartilhamento x. Tá acompanhando?

- Acho que sim.

- Eu tava gastando energia demais com isso. Resolvi comer batata frita.

- E ela sumiu?

- Sei lá.

- Pera, meu celular tá apitando. Amiga, você não acredita. Sabe a Lurdinha?

- Ahm.

- Aquela ex-namorada do irmão da Luciana.

- Sei.

- Adivinha COM QUEM ela tá trocando mensagem. E SOBRE QUEM.

- Cara.

- Sério, você não acredita o que ela tá falando aqui.

- É sobre batata frita?

- Claro que não.

- Então foda-se.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Terapia

- Quanto tempo, Marília. A que devo a honra de sua visita?

- Visita. Visita. Não sei se gosto muito desse seu deboche, doutora. Talvez por isso tenha ficado tanto tempo longe.

- Pouco provável, se bem te conheço, deve ter algo que está atiçando sua ansiedade.

- Você realmente acha que me conhece muito, né?

- Bom, são anos sendo sua terapeuta. Seis anos, talvez?

- Quase sete.

- Perfeito. Quase sete. A que devo essa consulta? Qual é a emergência?

- O Du.

- O que tem ele?

- Ah, você sabe. Minhas amigas me mandaram mensagem pra comentar sobre a esposa dele, que eles estavam em Paris ou coisa parecida. Justo Paris.

- O que tem Paris?

- Nós sempre pensamos em viajar pra lá.

- Hum.

- O que?

- Muita gente pensa em viajar pra lá. Não é exatamente como se você tivesse exclusividade nisso. Paris.

- Você é meio insensível, né?

- Pode ser. Mas não nesse caso. Há quanto tempo vocês estão separados?

- 5 anos.

- Pois é. 5 anos.

- E?

- Quem foi que terminou?

- Eu.

- E por que?

- Porque eu tava cansada dele.

- Pois é. E?

- E o que?

- Continua, Marilia.

- O que?

- Continua, Marilia.

- Ok. Eu nunca gostei dele como ele gostava de mim.

- É isso?

- Eu nunca gostei dele. Eu fiquei com ele porque ele gostava de mim e eu nunca gostei da ideia de estar sozinha.

- Não é melhor você falar isso em voz alta?

- Não.

- Talvez por isso nós estejamos há quase 7 anos em uma conversa que mais parece aquele filme, o Dia da Marmota.

- Não sei se essa sua abordagem é muito ortodoxa.

- Interessante.

- O que?

- O quanto você odeia ser confrontada.

- Isso não é verdade.

- O que suas amigas pensam disso tudo?

- Que ele é um cretino.

- Por que?

- Por causa de tudo que ele fez comigo, é claro.

- E o que ele fez contigo?

- Isso não vem ao caso.

- É mesmo?

- Bom, elas acham que ele me abandonou quando soube que eu estava grávida.

- Um momento. Eu não lembro de ter anotado isso aqui. Grávida?

- Sim.

- Pulamos essa conversa?

- Não. Eu não estive grávida.

- E?

- Eu não queria que elas soubessem que eu tenho pavor da ideia de morrer sozinha que nem minha mãe e minha tia.

- Então é melhor mentir?

- Grande merda, elas não iam continuar falando com ele mesmo, que diferença faz?

- Meu Deus, Marilia...

- Eu acho que você está exagerando, sabe?

- Ok. E seus pais?

- O que é que tem?

- O que eles pensam disso tudo?

- Bom, meu pai acha que ele é um canalha por ter me largado, é claro.

- Por causa do bebê?

- Pirou? Você realmente acha que eu ia deixar meu pai pensar que eu tava grávida?

- Só falta você me dizer que ele ainda acha que você é virgem.

- ...

- Mesmo com vocês tendo morado juntos?

- ...

- Hum. Sua mãe?

- Eu nunca tive que dizer nada pra ela. Ele foi embora e ela entendeu que eu era a vítima. Como ela foi.

- Claro. Da última vez que você veio aqui havia um rapaz na sua vida.

- Sim, o Beto.

- E?

- Estamos namorando.

- E o que ele pensa sobre essa sua obsessão com seu ex?

- Que obsessão, doutora?

- O que ele pensa?

- Ele não sabe. Tudo que ele sabe é que minhas amigas gostam muito mais dele do que daquele canalha.

- Ok. Ainda não entendi exatamente o que te trouxe aqui, já que você insiste que não tem nenhum problema. Não pode ser só Paris.

- Não. Ele vai ser pai. Já é, na verdade. O filho dele nasceu essa semana. No dia em que eu te liguei.

- E como isso te fez sentir?

- Você sabe, nós sempre pensamos...

- Não, não é verdade. Você nunca quis ter filhos, sempre disse que não queria ser sua mãe. Chegou a pensar em soluções definitivas, eu sugeri que conversássemos mais um pouco antes de você tomar qualquer decisão tão drástica.

- Você realmente anota tudo nesse caderninho, né?

- Sabe, eu acho que você confunde um pouco terapia com uma igreja, ou algo parecido.

- Não entendi.

- Você acha que vai fazer o que te der na cabeça fora daqui, vai ignorar tudo que conversamos, vai chegar aqui e me contar tudo e eu simplesmente vou te receitar algumas coisas, umas aves marias ou coisa parecida e você vai sair daqui leve e absolvida. Não é assim que funciona. Eu acho que você conseguiu não mudar absolutamente nada a seu respeito desde que entrou aqui a primeira vez.

- Você tem certeza de que isso é apropriado para uma terapeuta?

- Talvez não seja, Marilia. Mas eu já estou me sentindo incapaz de fazer qualquer coisa por você. E eu preciso te dizer isso, não dá pra simplesmente continuar aceitando seu dinheiro sem que esse trabalho surta nenhum efeito. É pelos remédios?

- Claro que não!

- Você não pode continuar vivendo nessa fantasia. Esse mundo incrível em que você não comete erros e todo mundo que se relaciona com você é tão mal caráter, sabe? Você parece só manter por perto quem bate palma pra você dançar.

- Você acabou de me chamar de maluca?

- Claro que não, isso seria completamente inadequado.

- Ah tá! ISSO seria inadequado.

- Ok. Você acha que eu estou errada?

- Não sei.

- Você acha que eu estou errada?

- Não. Mas...

- Você tem medo de ficar sozinha.

- E se eu for honesta?

- Algumas pessoas talvez te deem as costas. Mas outras podem ficar. Você não prefere assim?

- Não sei.

- Não te cansa fingir ser outra pessoa? Pior. Não te cansa fingir ser tantas pessoas? Porque seus amigos veem uma versão de você que seus pais sequer conhecem, e nenhuma delas é real. A não ser que...

- Que o que?

- Que você também tenha uma personagem pra mim.

- Não.

- Não?

- Não, aqui eu sou eu mesma. Acho que você gritaria comigo se eu fingisse qualquer coisa.

- Que absurdo.

- O que você quer que eu faça?

- Que você fale a verdade.

- Sobre?

- Por que você está aqui?

- Porque ele não morreu.

- Oi?

- Quando eu terminei com ele. Ele disse que ia morrer sem mim. Mas ele não morreu. Ele encontrou outra. Ele se casou. Eles tiveram um filho. E eu nem posso saber se o menino é lindo ou se ele é vesgo, porque ele me bloqueou em todas as redes sociais, eu não tenho acesso a ele.

- E você o culpa?

- Não.

- Marilia, o que você tem a ver com a vida dele?

- Não deveria ter sido tão fácil ele viver sem mim.

- Você nunca gostou dele, essa moça, a esposa dele, deve gostar. Eles constituiram família. A vida deles é deles e não tem absolutamente nada a ver com você. Já se passaram 5 anos, Marilia. Desculpa eu te dizer isso, mas o mundo não gira em torno de você.

- Certeza mesmo de que esse seu método é aceitável?

- Nós tentamos abordagens mais suaves e olha no que deu.

- E o que eu faço?

- Você precisa desapegar dessas vidas paralelas, dessas suas fantasias e começar a lidar com a realidade. Mesmo que ela seja menos colorida do que esses mundos que você inventou pra viver. Precisa contar a verdade pra quem te cerca e arcar com as consequências.

- E se eu não quiser?

- Eu terei de recomendar que você procure outro terapeuta.

- Mas...

- Desculpa, eu não posso continuar. É frustrante pra mim também.

- E se eu não estiver pronta?

- Você pode ir um de cada vez. Seus amigos, seus pais, seu namorado. Mas você precisa começar. Você tem 35 anos, Marilia. E sua vida quase inteira foi perdida nessa brincadeira.

- ...

- Pode chorar.

- Você vai me abandonar.

- Não vire a mesa.

- Não estou...

- Está sim. Quase 7 anos. Fora os 56 que eu mesma já vivi.

- Ok. Você é uma cretina.

- Somos duas então.

- ...

- A diferença é que eu estou sendo uma cretina pro seu bem.

- Isso é...

- Olha! Acabou nosso tempo. Tenho outro paciente, ele já deve estar esperando. Me liga semana que vem pra marcar a próxima sessão.

- Eu odeio você.

- Considerando que todos esses anos você viveu se odiando, fico feliz com a novidade. Até a próxima sessão. Carlos! Vamos entrar? Tchau, Marilia.






sábado, 19 de outubro de 2013

O projeto

- Mari?

- Oi, amor.

- Eu fui tentar pegar uma roupa no armário agora e percebi que tem um bloqueio na frente das gavetas.

- Hum.

- Tem algum motivo pra isso?

- Aaaaah! Sim, sim, claro.

- Você pretende me contar?

- Pera um segundo, tenho que terminar de mexer essa mistura na panela.

- O que você tá fazendo?

- Brigadeiro.

- Hum.

- Pronto. Então, Zeca. Eu tô com um projeto.

- Lá vem.

- Fica quieto.

- Tá.

- Eu vou resolver os problemas de decoração da casa.

- Com rolos de papel higiênico e caixas de papel?

- Aham.

- Tem maconha nesse brigadeiro?

- HA HA HA.

- Acho uma pergunta válida.

- Não, José Carlos. Eu tô com tudo desenhado na minha cabeça e ainda por cima serei sustentável. Você deveria se orgulhar da minha iniciativa, em vez de ficar debochando de mim.

- Mari, isso é tipo aquela vez em que você resolveu que ia fazer tricô pra economizar nas roupas de frio?

- Pode falar, mas você adora aquele poncho que eu fiz pra você.

- É um cachecol.

- A receita do poncho era impossível e o cachecol ficou lindo.

- Cabe só no cachorro, mas é lindo mesmo.

- Ele arrasa quando passeia no inverno, eu vejo a inveja nos outros cachorrinhos.

- Claro. Teve também a vez em que você resolveu que ia fazer geléia em casa, porque as que tinham no mercado eram muito cheias de açúcar e sei lá mais o que.

- Você adorou as geléias que eu fiz!

- A geléia. A geléia. Você jogou mais fruta fora do que conseguiu botar nos potinhos.

- Tá bom, Zeca. Tá bom.

- Mas tava gostosa. Eu jamais teria pensado que geléia de fruta do conde ficaria boa.

- Eu sou criativa.

- Tipo quando você decidiu que todos os móveis da casa seriam de pallet e caixa de feira. Acho que eu guardei os desenhos pro sofá em algum lugar...

- Se a gente não tivesse achado aquela super liquidação de móveis naquela loja nossa sala seria motivo de conversa entre todos os amigos.

- Com certeza.

- O que você está insinuando,\José Carlos? Eu senti o deboche nessa sua entonação.

- Mari?

- Que?

- Por que você não admite que seus projetos são furados?

- Que absurdo!

- Sério, meu amor. Você é engenheira, qual o problema de admitir que você é melhor com números do que com origami?

- Dessa vez vai ser diferente.

- Por que?

- Porque eu achei um blog.

- Ai, cacete.

- É sério. Ele tem todos os passos explicadinhos do que fazer, com vídeos e fotos. É demais.

- Que porra de blog é esse?

- Esse aqui, ó.

- Aaaaaaaaaaaah!

- Que?

- Você não vai acreditar.

- O que?

- É uma coincidência engraçada.

- O que?

- Esse blog.

- Ahm.

- É da minha ex. A Carol.

- Carol Marques é a sua Carol Marques?

- Aham.

- Hum.

- Que?

- Que dia é hoje mesmo?

- Quarta.

- Gente, que coincidência.

- O que?

- É dia de passar o caminhão da coleta seletiva. Deixa eu aproveitar pra botar aquela papelada toda na lixeira antes que eles passem. Nossa! Já são 9h, deixa eu correr!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Compras

- Alô?

- Oi, amor.

- Só pra avisar que eu vou passar no mercado antes de ir pra casa, vou comprar o jantar.

- Opa, qual será o cardápio?

- Não sei ainda, depende do que eu encontrar no mercado.

- Como assim?

- Te explico mais tarde, te amo.

- Também te amo, linda.

...

- Amor?

- Oi! Tá em casa?

- Não, tô no mercado ainda.

- Eu já tô chegando, me atrasei um pouco, mas tô chegando. Aconteceu alguma coisa? Tem duas horas que a gente se falou, achei que já estivesse atrasado pro jantar.

[lágrimas contidas] - Ai...

- O que aconteceu, Ju? Tá tudo bem?

- Você sabia que tem glicose na mostarda?

- Que?

- Tem glicose na mostarda. E açúcar. E aquele molho de tomate que eu sempre comprava porque dizia na embalagem que era mais saudável, com menos sei lá o que? Glutamato monossódico.

- Ju, onde você tá?

- No mercado.

- Chorando?

- Éééééééé... [lágrimas declaradas]

- Ju.

- Que?

- Vai pra casa?

- Beto, você sabe o mal que farinha de trigo faz?

- Cara, o que você tá falando?

- Eu li uma matéria.

- Puta que pariu.

- Que?

- Você e essas matérias.

- É sério. É uma pesquisa. Eles explicam que tomar suco de fruta todo dia aumenta o risco de diabetes.

- Ah, fudeu.

- Eu tô falando sério!

- Aham, agora não pode mais tomar suco de fruta.

- Claro que pode, mas não todo dia.

- Ju. Vai. Pra. Casa. Porra.

- Beto, eu não fiz as compras ainda.

- MAS VOCÊ TÁ HÁ DUAS HORAS NA PORRA DO MERCADO, TÁ FAZENDO O QUE ESSE TEMPO TODO, CARA?

- Tava lendo os rótulos. E VOCÊ PARA DE GRITAR COMIGO!

- Ok. Eu paro. Mas você vai largar esses rótulos e vai pra casa agora. Eu tô com fome.

- Eu não consegui comprar o jantar, vou cozinhar o que?

- Não tô mandando você ir pra casa pra cozinhar, só quero que você venha pra gente decidir junto o que vai comer.

- Ah, que merda.

- Que?

- Estraguei tudo, era pra ser uma surpresa, ia fazer costelinha no barbecue pra você, mas eu vi tudo que tinha no molho e decidi fazer eu mesma. Não deve ser difícil, né?

- E é?

- Não, mas tenta achar uma mostarda sem açúcar e sem glicose. E um molho sem glutamato. E cara, você já viu o tanto de sódio que tem nas coisas?

- Que coisas?

- TUDO!

- Juliana?

- Roberto?

- Chega.

- Mas amor...

- Chega.

- Tá.

- Vem pra casa?

- Eu vou. Mas posso te pedir uma coisa?

- Claro.

- Pede uma pizza?

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A caneca

Vinicius entrou em casa pra encontrar Mariana sentada num canto do sofá, aos prantos.

- Amor? Ce tá bem?

- Eu - soluço - nãããããããããão!!!! - agudo.

- Calma, Mari! O que aconteceu?

- Eu - mais soluços - iiiiiiiiiiiiiiiiih - ruído incompreensível.

- Respira. Calma. Respira.

Mariana respirou. Tomou fôlego. Quinze minutos depois, já aconchegada no peito de Vinicius, declarou:

- Eu quebrei sua caneca.

- Minha...

- Ai, amor, eu tava lavando a louça e fui mexer na pilha que você deixou no canto da pia e eu já liguei pra minha mãe e...

- Pera. A caneca que meu pai me deu?

- É, deixa eu terminar de arrumar a mala.

- Mari, senta. Pra que você vai arrumar mala?

- Eu vou ficar na mamãe, eu quebrei sua caneca.

Vinicius riu.

- Cara, você acha o que? Que a gente vai brigar? Que eu vou, sei lá, TERMINAR com você?

- Você amava a caneca.

- Mas eu amo você bem mais.

- Awn. Você não tá bravo?

- Não. Eu tô PUTO. Tô puto pra caralho. Mas, cara. Era uma caneca, sabe?

- Ai, amor, desculpa. Te amo, eu tava tentando fazer uma coisa bonita, legal, só fiz merda.

- Tranquilo. Mas por que você tava lavando louça?

- A Lurdes não veio. Disse que o neto tava com dor de dente.

- Entendi. Bom. Talvez seja interessante comprar uma máquina de lavar, hein?

- Ai, jura? Eu até vi umas tão legais na internet...

- Depois manda o link. Vamos ver o preço.

- Tá!

Vinicius se dirigiu à cozinha, pra avaliar o estrago, se despedir da caneca, essas coisas.

- Amor?

- Oi!

- Você me trouxe flores.

- Trouxe.

- Por que?

- Como assim por que?

- Não é data especial, não é meu aniversário, nem aniversário de namoro, nem nada demais.

- Ahm.

- O que você fez?

- Como?

- O que você fez?

- Mariana, você realmente tem a cara de pau de sugerir que eu teria te trazido flores pra encobrir alguma coisa errada? Qual o seu problema?

- Você nunca me dá flores, Vinicius. Coisa boa não deve ser.

- Quer saber, Mariana? Eu vou dar uma volta.

- Mas você acabou de chegar.

- Pra você ver. Tchau.

- Amor?

- Que? - Perguntou já com a porta aberta, um pé fora de casa e o outro prestes a seguir.

- Eu tô sem calcinha.

- Tem um vinho na geladeira, pera. Vou abrir.

Vinicius fechou a porta e foi lamentar a caneca quebrada.

Ou quase isso.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Aniversário

- Um ano já.

Ela comentou como se fosse nada.

- Um ano? - Ele beijou-lhe o pescoço. - Verdade. Um ano...

- Passou rápido, né?

- Passou. Quem diria...

- Bom, eu diria. Eu soube desde o primeiro dia.

- Soube?

- Sim, desde aquele café. Na hora em que você cheirou meu cabelo eu soube que ia me apaixonar por você. E que você era o cara.

- Eu não cheirei seu cabelo.

- Tá.

- Sério.

- Tá.

- Tá, eu cheirei seu cabelo. - Disse afundando o rosto em seu pescoço pra repetir o momento. - Você tava tão cheirosa aquele dia. Que nem agora.

- Eu sou cheirosa.

- Eu sei.

- Mas como eu dizia, eu sempre soube.

- Eu tive minhas dúvidas.

- Hein?

- Eu jurei que a gente fosse dar errado.

- Jurou que a gente fosse dar errado? Como assim? Quando?

- Ah, lá no comecinho. A gente era muito diferente. É muito diferente.

- Diferente em que?

- Em muita coisa. Em tudo. Sei lá. Eu achei que fosse dar errado.

- Me dá um exemplo.

- Para, cara. Não vem ao caso.

- Como assim não vem ao caso? Você achou que a gente fosse dar errado!

- Mas isso foi lá no começo. Bem no começo. Tem um ano já, cara. Deixa isso pra lá.

- Claro, deixa pra lá. Eu aqui contando uma história desse relacionamento e você me diz que não é nada disso.

- Hein?

- Ah, eu sempre achei que tivesse sido amor à primeira vista, arrebatador, blablabla. Você sabe a história. Eu conto o tempo todo.

- Mas foi assim. Eu me apaixonei por você desde o café. Desde o dia em que eu não cheirei seu cabelo.

- Aham.

- Foi sim. Eu só achei que ia dar merda.

- Porra.

- Que?

- Primeiro era dar errado. Agora é dar merda.

- Qual a diferença?

- Deixa pra lá.

- Lá vem.

Silêncio.

- Psiu.

- Oi.

- Que foi?

- Nada.

- Nada é o cacete. Você tá puta.

- Tô não.

- Tá sim, te conheço. Tá quieta, tá puta.

- Nem. Tô tranquila. Só aproveitando o momento.

- Que momento?

- Tô aqui registrando mentalmente a primeira vez em que eu estive certa nesse relacionamento. E você errado. Erradíssimo, na verdade. Absolutamente errado.

- Oi?

- É. Só você mesmo pra achar que a gente não ia dar certo.

- Hahahahahaha...

- Óbvio que a gente ia dar certo.

- Você é um gênio, amor.

- Um ano.

- Verdade...

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Classificação

Ouviu a porta abrir.

- Amor?

- Oi, amor.

- Quarta-feira. Não marca nada. Vou fazer um cachorro-quente aqui em casa, uns amigos vêm pra cá.

- Boa noite, amor. Como foi o seu dia? Tudo bem no trabalho? Também senti sua falta. Pera. Quarta? Mas quarta tem jogo! Copa do Brasil! Vale classificação, cara.

- Eu sei. Vai passar na TV. Aliás, assinei o PFC pra você.

- Oi?

- Assinei o PFC. Eu sei que você fica puto quando não acha onde ver, especialmente quando nenhum dos seus amigos topa ir naquele bar.

- Ah...

- Aliás, eles já confirmaram quarta-feira.

- Meus amigos?

- Isso. O Paulo, o Beto, o Igor.

- O Igor?

- Aham. E vai trazer a Natália.

- Natália?

- Namorada nova. Uma graça de menina.

- Eu já fiz uma lista de cervejas pra comprar. Tá tudo certo.

- Entendi.

- Tô terminando o jantar aqui. Se quiser tomar um banho antes de comer, tudo bem.

- Tá. É. Boa ideia. Vou tomar um banho.

- Ah. Amor?

- Oi?

- Eu tô grávida.

-...

- Tem sua cerveja favorita na geladeira.