domingo, 11 de maio de 2014

Disse me disse

- Ah lá aquele cara sendo babaca de novo.

- Aham

- Sério, não sei como esse povo aguenta ser amigo dele, as besteiras que ele fala.

- Aham.

- Olha aqui, olha!

- Não, cara. Eu tô tentando trabalhar.

- Porra, você não pode olhar um instante? Olha o que ele disse!

- Cara, foda-se o que ele disse. E foda-se o que você acha, eu tô tentando trabalhar.

- Ui, nossa, ele tá tentando trabalhar.

- Beleza, deixa eu ver.

- Aqui.

- Legal, eu concordo com ele.

- Como assim?

- Olha, eu tava querendo evitar essa conversa, mas lá vai. Você conhece esse cara?

- Nem quero.

- Por que?

- Porra, as paradas que nego fala dele... Quero nem conhecer. É o maior mau caráter.

- Sério? E você sabe disso só pelo que os outros falam dele?

- Pô, precisa mais?

- Sei lá, você faz o que da vida mesmo?

- Vai se fuder, cara, você sabe que eu sou jornalista, que nem você.

- Ah, tá. Só queria checar se você tinha esquecido disso.

- Não entendi.

- Se alguém te disser agora que tem uma bomba no vão do elevador do prédio, você vai checar pra ver qual é ou você vai escrever uma matéria sobre isso e apresentar correndo pro seu editor?

- Vou checar, né? Tá me estranhando?

- E por que você não tem esse mesmo cuidado quando vai falar de um cara que você nem conhece?

- Pô, tô falando com você aqui, você é meu broder e tal.

- Para, cara. Eu já vi você falando do cara pra quem quisesse ouvir, em mesa de bar, Twitter, Facebook, você nem se preocupa em averiguar as paradas.

- Qual é a tua, hein Carlos?

- A minha, André, é que eu conheço o cara e eu nem entro nesse mérito. Você nunca sequer me viu defender o cara quando você enche a boca pra falar que ele é isso, fez aquilo, um bando de coisa bem séria pra você falar por aí sem ter um pingo de prova, sabe? E eu fico de boa, porque eu não quero entrar nessa discussão, nesse mérito. Mas eu tomaria cuidado se eu fosse você.

- Isso é uma ameaça?

- De jeito nenhum, não sou desse tipo.

- Quer dizer então que você conhece esse bosta?

- Conheço, André. E conheço a família dele, a mulher dele, os filhos dele.

- Sério que alguém casou com ele? E teve filhos com ele?

- Você não aprende, né?

- Sei lá, cara, as histórias são foda.

- História da tua mulher?

- Pô, minha ex.

- Sério?

- É. Mas nem quero falar sobre isso.

- Que bom, nem eu. Não sabia que você era desse tipo.

- Que tipo?

- Que odeia por tabela. E relativiza as coisas com as quais você deveria ser responsável.

- Que pesado, cara.

- Te garanto que você já falou coisa bem mais pesada do cara.

- Cara, na boa, tu conheceu a ex-namorada dele?

- Você conheceu?

- Não, mas minha ex era amiga dela e vários amigos conhecem ela.

- Eu conheci a garota sim. E posso te falar? Nunca gostei dela. Minha mulher, então, inventava qualquer desculpa pra não ter que ir em encontro da galera quando sabia que ela estaria lá. A Maria odiava a Patrícia com todas as forças. Odeia ainda, na real.

- Como assim, cara?

- Pois é, essa é a diferença entre nós dois. Eu não vou te falar nada do que eu sei. Ou melhor, nada do que eu ouvi. Sabe por que? Porque eu não tenho provas. E hoje ela tá lá naquela emissora, apresentando o tempo e eu não quero que chegue coisa lá que atrapalhe a Patrícia na carreira dela. Ela já deixou o cara em paz, coitado.

- Ela seria capaz de ir atrás dele? Depois de tanto tempo?

- Eu não vou falar sobre isso, André.

- Porra, você levanta a bola e corta a conversa assim?

- Eu não levantei bola nenhuma, eu só comentei que o tanto que você ouviu falar de ruim dele eu ouvi falar de ruim dela. E até já vivenciei algumas coisas, mas eu não me meto na vida dos outros. Mais ainda, eu não transformo em missão da minha vida ficar arruinando a vida dos outros.

- Qual é,  cara? E eu transformo?

- Também não disse isso, mas você tem uma aba de pesquisa de um cara que não é teu amigo e você só odeia porque sua ex um dia te disse alguma coisa.

- Nem é isso...

- Ah, é, desculpa. E alguns amigos também.

- Pô...

- De todo modo, cara, eu concordo com o que ele escreveu aí.

- É. Eu não concordo muito não. Mas tá bem escrito até.

- Você não precisa concordar com ele não. Nem comigo.

- Eu sei que não.

- Só duas coisas: Vocês iam se dar bem. E pensa aí como você ficaria se tua ex começasse a falar coisas desse tipo de você pros amigos e a história escalasse como se fosse verdade, como você ficaria.

- Ela não faria isso.

- É, ele também achava isso da Patrícia.

- Como assim a gente ia se dar bem?

- Ou não, André. Sei lá. Tô trabalhando...


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Capítulo

Era quinta-feira. E, como em toda quinta-feira, Amanda botou o Kindle na bolsa e foi almoçar com um livro.

- Lá vem você com a concorrência aqui de novo.

- Um dia vocês ainda vão me cobrar rolha por isso, né?

- Enquanto você continuar comprando livros de verdade e consumindo no nosso café, acho que podemos te garantir o desconto. Mas não abusa!

- Prometo.

- O de sempre?

- Sim, mas hoje eu quero uma tacinha de vinho.

- Hmmm... Esse livro deve ser bom mesmo, hein?

- É sim, é um daqueles.

- Já volto.

Amanda abriu o livro e continuou de onde havia parado. Faltava pouco agora, com 95% da história já completados, ela só conseguia pensar em quanto tempo ela reencontraria o amigo.

Ela já sabia que as coisas não acabariam bem, afinal, era um livro sobre guerra.

- O rapaz da mesa 3 já se ofereceu pra pagar seu vinho.

- Não, obrigada.

- Já avisei, só repassando a informação.

Ela já estava acostumada com o incômodo que causava nas pessoas com sua insistência em sentar-se sozinha vez ou outra. Fosse pra ler, comer, beber, ou simplesmente rabiscar numa folha de guardanapo enquanto ouvia música.

Aparentemente, mulher só fica sozinha na mesa até aparecer companhia.

"Não, obrigada" - ela respondia e acenava com a cabeça, a fim de não parecer mal educada. Não que ela se importasse tanto assim com o sentimento de estranhos, mas as pessoas tendiam a se comportar de forma irritantemente insistente diante de uma grosseria.

Mesmo que merecida.

- Eu sou mais interessante que esse tablet.

- É um Kindle.

- Tudo bem. Eu sou mais interessante que esse Kindle.

- Que bom.

- Posso sentar?

- Não, eu estou lendo.

- Você pode ler depois, não pode?

- Posso. Mas eu quero ler agora.

- Você é dessas que se faz de difícil, né?

- Como você se chama?

- Joaquim.

- Prazer, Joaquim. O Carlos te agradeceu pela oferta do vinho, né?

- Quem é Carlos?

- O garçom por intermédio de quem você tentou me cantar.

- Ah, sim. Ele agradeceu sim.

- Ele disse que eu não estava interessada?

- Disse.

- Você veio até aqui mesmo assim, né?

- Sim, claro.

- Só pra eu te dizer pessoalmente o mesmo "não, obrigada" que o Carlos tinha te dito?

- Foi o que você disse, sim.

- Só estou tentando acompanhar seu raciocínio, entender a dificuldade.

- Que dificuldade?

- De compreensão.

- Minha?

- Claro, porque eu refiz o caminho todo aqui e percebi que não poderia ter sido mais fácil. Você se ofereceu e eu agradeci. Mas não.

- Que antipática você.

- Você não sabe lidar bem com rejeição, né?

- Por isso fica sozinha aqui.

- Na verdade, eu quero estar sozinha aqui. E se você tivesse aceitado minha resposta eu já teria terminado mais um capítulo.

- Beleza, você vai se arrepender. Eu sou bem melhor que essa merda de livro aí.

- Eu duvido muito. Se você é inconveniente com estranhos, imagina o que você não deve ser chato como namorado? Ou marido? Prefiro nem correr o risco.

- Vaca.

- Ok.

Joaquim nem pediu a conta ao garçom. Jogou uma nota de 50 que certamente pagaria pelos cafés que ele tomou e pelo vinho dela.

Não esperou pelo troco, tampouco planejava voltar ali.

- Ficou puto o rapaz.

- Reparei.

- Mas pelo menos deixou uma gorjeta boa. De repente a gente pode combinar um esquema, fazer isso mais vezes.

- Carlos?

- Me deixa ler?

- Me deixa ler.

Finalmente, a personagem conseguia reencontrar o amigo. Amanda começou a chorar em pleno café.

Carlos aproveitou a deixa pra renovar o estoque de guardanapos da mesa.

- Traz outra taça de vinho?

- Claro.

Mais 10 páginas pra ela saber o que aconteceu naquela maldita guerra, que fim levou a personagem, se ela morreria, sobreviveria, se alguém teria um final feliz.

Era isso que Amanda não entendia nas pessoas que sentiam pena dela, ali, desacompanhada.

Enquanto ela tivesse um livro, ela definitivamente não estaria sozinha naquela mesa.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Um dia ruim

- Flávia?

- Aqui.

- Aqui onde?

- Aqui. No quarto.

- O que você tá fazendo no quarto, mulher?

- Ai, Bernardo...

- E por que você tá no escuro?

- Ai, não acende a luz, merda.

- Você tá de chapéu?

- Sim.

- Maquiada?

- Sim.

- Enrolada no cobertor numa temperatura de 30 graus.

- O ar tá ligado.

- Não, não tá.

- Deve ter parado de funcionar.

- Você tá bêbada?

- Não. Talvez.

- Tá.

- Ok. Tô.

- Cara, o que você tá fazendo?

- Nesse momento, conversando com você.

- Ai, meu caralho. Estamos literais, né? O que você tava fazendo maquiada, de chapéu, embrulhada no cobertor, no escuro, com o computador no colo?

- Vendo fotos de bichinhos.

- Oi?

- De chapéu.

- Hum.

- Pois é, eu quis entrar no espírito.

- Flávia, me explica?

- Ai, é tanta coisa.

- Resume.

- Você viu aquela camiseta ridícula? Então. Eu tava falando dela, comentando como era sexista, daí o pessoal começou a falar que a gente sempre fez propaganda do Brasil desse jeito, vendeu o país assim, agora tem que pagar o preço. Eu adoro quando as pessoas mudam o foco pra desmerecer o assunto, sabe? GENTE UM PORQUINHO DA ÍNDIA COM UMA BOINA.

- Flávia!

- Desculpa. Daí deu uma merda no trabalho. E depois aconteceu uma coisa incrível. E eu queria chorar. Primeiro de chateação, depois de felicidade. Mas mulher de batom vermelho não chora.

- Que?

- É. Não chora.

- O que tem o batom vermelho?

- Ah, uns caras ridículos me cantaram por causa do batom. Ficaram fazendo comentários indecentes porque meu batom era vermelho. E um amigo disse que eu tinha que acostumar porque era assim, se quisesse usar batom vermelho tinha que aguentar chamar atenção.

- Que amigo?

- Nem é amigo, é colega.

- Quem?

- Tanto faz. Idiota.

- Eu?

- Ele, porra.

- Continua.

- Ah, já esqueci. É tanta merda, sabe? Daí eu vim pra casa. E fiz um drink. Acabou o drink. Abri uma cerveja. Acabou a cerveja. Fui jogar. Daí o jogo é daqueles que você joga online, sabe? E eu lembrei que era daqueles colaborativos. E pensa num dia merda pra depender de gente? Pois é. Desliguei o jogo. Tô vendo bichinhos no Tumblr.

- Bichinhos de chapéu.

- Ééééééé. Olha!!!!

- Um poodle de chapéu.

- SIIIIIIIIIIIM!

- Meu amor, eu posso fazer alguma coisa por você?

- Pode. Pode muito.

- Você quer um abraço? Quer ficar de conchinha? Quer um cafuné?

- Não. Traz mais cerveja?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Negociação

- Me ligaram hoje da academia.

- É mesmo?

- Uhum. Queriam saber por que eu não ia desde o dia 15.

- Do mês passado?

- Retrasado.

- Só agora deram por falta de você?

- Não, essa foi a terceira ligação.

- E aí?

- E aí que eu expliquei que tava muito puta com o aumento da mensalidade. E que saber que esse aumento rolaria todo ano não me animava muito, já que tudo aumenta e meu salário não aumenta proporcionalmente.

- É verdade.

- Pensa só. É academia, aluguel, TV a cabo, tudo vem com reajustinho e nada de reajustinho no que eu ganho.

- E eles?

- Ah, me perguntaram se eu consideraria voltar diante de uma proposta.

- Interessante, hein?

- Também achei na hora, daí disse ok.

- E eles te ofereceram vantagem?

- Esse é o ponto. Sim. Propuseram que eu pagasse mensalmente o equivalente ao plano anual. É um belo desconto, mas ainda assim é mais do que eu pagava.

- E?

- Tem mais. Disseram que, se eu continuasse achando caro, eles voltavam ao valor antigo.

- Bom, né?

- Pois é. Só que daí eu fiquei pensando e não me senti à vontade de aceitar. Porque eles só estão conseguindo absorver esses descontos porque o resto dos alunos tá pagando o aumento. Sabe? Me sentiria uma canalha por aceitar ser favorecida.

- Sei.

- Me fez pensar que eles nem devem precisar aumentar nada agora, eu fiz as contas, quanto somaria todos esses a mais que todo mundo tá pagando. Tá bem acima dos aumentos que eles podem ter tido de custo, sabe? É ganância. Pura e simples.

- Aham.

- Acho que vou recusar. Não me sinto bem. Mesmo. Preferia que nem tivessem me oferecido esse desconto.

- Claro.

- Tô falando sério, amor.

-  Tô impressionado.

- Com o que?

- Acho que eu nunca vi você construir um argumento tão elaborado pra justificar sua preguiça de malhar.

- Preguiça? Que absurdo! É o princípio da coisa!

- Preguiça.

- Eles estão explorando os alunos!

- Preguiça. Você sempre odiou sair pra malhar.

- Sério, não acredito no que eu tô ouvindo. Justo você, que tem falado tanto desses protestos contra os preços abusivos.

- Preguiça. Confessa.

- Eu não...

- PRE-GUI-ÇA.

- Quer saber? Vai à merda.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Dia de jogo

Toca o interfone.

- Oi.

- É a dona Letícia.

- Pode subir.

Som de campainha.

- E aí? Trouxe as cervejas.

- Ótimo, já tá todo mundo aí. A Duda trouxe comida.

- "Comida". Merda nenhuma, trouxe porcaria.

- Ok, a Duda trouxe porcaria. Você trouxe a cerveja. Eu tenho a tv com o futebol; Fechou.

- Cadê o Pedro, Marcela?

- Foi ver o jogo na casa dos broders dele lá.

- Ela fez uma cara arrasada, você tinha que ver. Foi só ele sair que desfez o bico.

- Hahahaha...

- Cala a boca, Duda. Não é como se eu ficasse feliz por ele ver o jogo longe de mim. Na verdade, uma parte de mim fica é puta pra caralho. A gente se conheceu vendo um jogo, agora a gente raramente faz isso junto. Ele diz que reforça a masculinidade dele ver o jogo com os caras.

- O que isso significa?

- Sei lá. Mas daí eu vejo com vocês e tá tudo bem, porque vocês são mais legais que aqueles bostas dos amigos dele, que acham que eu sou retardada só por ser mulher.

- Porra, Marcela. Qual é?

- Foi mal, Lele. Eu sei que o Kadu é um dos bostas.

- Nah, beleza. Eu entendo. Eu falo a mesma coisa, então eu coloco o Pedro no grupo dos bostas.

- 20 minutos.

- A cerveja tá gelada?

- Claro. Olha pra minha cara e me diz se eu ia trazer cerveja quente?

- Boa. E aí? Palpites pra hoje?

- Bom, se ele entrar com o time titular e os caras jogarem a mesma coisa que no último jogo, eu acho que a gente vai suar.

- Eu também. Comecei a falar sobre isso com o Pedro, mas daí ele veio com aquele papo chato de que o fulano do blog tal disse isso, que os caras no grupo do Whatsapp disseram aquilo e eu pensando "Nossa, foda-se. Não lembrava de ter convidado tanta gente pra uma mesa redonda.". Deu uma puta saudade de quando a gente trocava ideia só a gente, sabe?

- Mesma coisa com o Kadu. Tá muito cheio de especialista hoje em dia, né? E eu já odiava ter que ouvir os que ganhavam a vida, recebiam salário pra ser chatos. Imagina esses que fazem de graça?

- Olha, eu sei que vocês odeiam quando eu digo isso, mas eu fico TÃO feliz por que o Fernando odeia futebol... Beleza, eu tenho que aturar ele acordando cedaço pra ver Fórmula1 nos domingos, mas pelo menos ele não discute aquilo comigo e eu não me interesso mesmo, ou seja...

- Sério, Duda. No começo eu meio que sentia pena de você, por ter casado com um cara que não entende nem compartilha da sua paixão. Mas hoje eu dia eu acho que eu e a Marcela nos fudemos bem mais que você.

- Verdade. Vaca.

- Beijinho no ombro pra vocês.

-Alá! Apitou o juiz.

- Tomara que esse filho da puta não acabe com as minhas chances de sexo hoje. BORA TIMEEEE!!!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Cena

- Kika? - A voz perguntava do lado de fora do camarim enquanto se ouvia uma batida na porta. - A repórter chegou.

- Pode mandar entrar, obrigada.

A moça loira, já em seus 40 anos, entrou estendendo a mão.

- Oi, Kika. Que prazer em finalmente te conhecer.

- O prazer é meu, Laura. Uma repórter tão renomada quanto você, o prazer é meu.

- Eu achei curioso que você tenha me requisitado nominalmente, na verdade.

- Claro. Entendo sua estranheza. É que o assunto era de extrema delicadeza e eu achei importante que fosse alguém como você a cuidar disso. Alguém talentosa, séria como você.

- Fico lisonjeada.

- Podemos? A peça começa em pouco tempo, ainda preciso me maquiar. Desculpe pedir que viesse assim em um horário tão espremido, mas minha agenda estava realmente...

- Claro, claro. Eu entendo. Vamos.

- Bom, você sabe que eu e o Cássio tivemos um longo relacionamento. Nossa história é antiga.

- E bastante pública.

- Sim. Não. Na verdade, isso é o que vocês pensam. Muita coisa ficou de fora.

- Hum?

- É. Vocês não sabem de tanto quanto vocês pensam.

- Sim?

- É muito difícil pra mim comentar sobre isso, falar abertamente, mas eu acho que é importante eu assumir, não só por mim, mas... O Cássio... Ele me bateu.

- Bateu?

- Sim.

- Não batia?

- Desculpe?

- Não, é que achei curioso o tempo verbal.

- Como?

- Você declarou como se fosse algo que aconteceu uma vez. Bateu. Não algo que talvez tivesse acontecido de forma frequente. Batia.

- Não estou te entendendo.

- Está sim. Me perdoe, Kika, mas eu já havia ouvido os boatos. Entre suas maquiadoras, cabeleireiras e outras pessoas que já trabalharam com você desde a separação. Essa história de que o Cássio talvez tivesse te batido não é novidade. Eu achava que você de repente tinha me chamado aqui hoje pra anunciar algo mais... Interessante.

- Interessante?

- Não me entenda mal. Se eu de fato achasse que essa história era real, eu seria a primeira a pular nela. Mas eu não acho que seja nem de longe verdade.

- Você acha que eu inventaria algo assim?

- Sim, eu acho. Você deve imaginar que eu acompanho sua carreira desde sempre. E é claro que isso implica em acompanhar sua vida também. Você nunca foi exatamente uma pessoa que prezou pela sua privacidade, convenhamos.

- Era só o que me faltava.

- E eu imagino que o fato de eu ser feminista e, talvez, uma das poucas repórteres que ainda é levada a sério nesse meu ramo... Bom, isso deve ter influenciado na sua escolha.

- Eu te chamei aqui porque eu te respeito, Laura. E eu gostaria que você me respeitasse também.

- Claro, e eu estou te respeitando. Estou te respeitando, inclusive, te dando a chance de não insistir nessa história. O que te levou a começar isso? Ele ter sido chamado pra assumir um núcleo na emissora? O livro que ele vai lançar? Ou o noivado?

- Do que você...

- Não se faça de tonta. Você sabe do noivado. Todo mundo sabe do noivado. Até porque a Silvia não é exatamente uma qualquer. Ela é uma jornalista econômica séria. Conhecida, respeitada. Admirável, eu diria. Artigos publicados lá fora, bonita, jovem, bem sucedida.

- Onde você quer chegar?

- Você tem o que? A mesma idade que ela? Talvez uns 6 anos a mais? E está o que? Fazendo esse espetáculo de quinta. Eu não quero parecer desrespeitosa, mas essa peça é uma porcaria. Não por ser teatro independente, é claro que não, mas por ser uma porcaria mesmo. Só isso. E não é como se estivessem chovendo convites pra você interpretar papéis maravilhosos, eu acho que isso aqui deve ter sido seu melhor papel em um bom tempo. O último foi aquele comercial de seguro. Tô errada?

- Eu vou pedir que você se retire. Eu devia ter falado com aquele outro rapaz, aquele que escreve no outro jornal.

- E ele teria escrito sua história. Porque você sabe que ele escreve qualquer coisa, mesmo que ele tenha certeza de que não passa de um boato maldoso, mas eu não. Por que não dizer que o Cássio é gay?

- Que?

- É, se você quer difamá-lo, por que não dizer que ele é gay?

- ...

- Ah, sim. No meio artístico isso não seria um choque. Ou, pelo menos, não o tipo de choque que você quer causar. Mas bater em mulheres... Isso sim. Seria um ruído terrível nesse momento dele. E ainda jogaria por terra a imagem da Silvia.

- Eu não sei do que você está falando.

- Sabe sim, Kika. Qualquer estariágio que tenha estudado você minimamente saberia que, se alguém nesse relacionamento era capaz de violência, esse alguém era você. Ele esteve do seu lado quando você teve seu problema de bebida, quando você desapareceu e disse que estava indo estudar teatro fora. Todo mundo sabe que você se internou pra cuidar da cabeça, mas ele sustentou sua história. A verdade é que foi você que saiu do relacionamento. Você achava que sua carreira deslancharia sem ele? Você tinha um plano? Me explica.

- Eu preciso me arrumar, o espetáculo vai começar daqui a pouco e eu ainda preciso me concentrar.

- Espetáculo. O espetáculo é isso aqui, esse circo que você quer armar. Sabe o que me fode, Kika? E sim, eu disse fode mesmo, já que eu não tenho tempo, não vou conter meu vocabulário. O que me fode é que eu já apanhei. E não de mentirinha, pra aparecer e pagar de coitada pro público, pra ganhar a simpatia dos outros. Eu apanhei de ter ossos quebrados e hematomas extremamente aparentes. Eu apanhei de ter de chamar meu editor pra conversar e trabalhar de casa, pra não dar as caras na redação e dar margem a conversinhas. Eu apanhei de denunciar meu ex-marido, de envolver polícia e advogado. Nem sempre eu trabalhei escrevendo sobre artistas e televisão. Você sabe quem eu sou. Se hoje eu faço isso, é porque eu escolhi. Porque eu cansei de escrever sobre o que eu escrevia. Não me subestime. E não me desrespeite.

- Você pode sair.

- Posso. Mas eu ainda quero te falar algumas coisinhas. Isso que você tá tentando fazer, é por causa de gente que nem você, mesquinha, mentirosa, inconsequente, que tem cara que espanca a esposa, os filhos, e não é enquadrado. Porque as autoridades, quem é responsável por cuidar disso, não acredita em quem denuncia. Nessa merda de sociedade, é bem fácil que as pessoas achem que as mulheres só querem prejudicar um homem de bem. E é por causa de gente que nem você, que fica inventando história, que tem tanta mulher que apanha e se sente desamparada, acha que ninguém vai acreditar nela. Você me enoja, sabe?

- SAI. DAQUI.

- Eu saio. Tô saindo. Espero que você pense bem sobre essa nossa conversa. Você não deve ter um amigo pra te dissuadir dessa idiotice, então pensa em mim como sua amiga. Foca no que restou da sua carreira. De repente você ainda tem o que salvar aqui. Sua dignidade, talvez.

- LUZIA! AJUDA A NOSSA AMIGA A ACHAR A PORTA, FAZ FAVOR? E LIGA PRAQUELE RAPAZINHO QUE ESCREVE PRO OUTRO JORNAL? COMO É O NOME DELE?

- É João Carlos, Luzia. Pera que eu te dou o número aqui. E pode deixar, Kika. Eu vou dar uma ligada pro Cássio e pra Silvia. Faço questão de escrever um especial sobre o noivado deles, sobre esse momento maravilhoso que ele tá passando, sobre esse prêmio que ela deve receber. Acho que vai ser uma matéria maravilhosa.

- Você ainda tá aqui, meu Deus?

- Não, já tô saindo. Ah, sim. Merda pra você. Muita, muita merda.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Banheiro

Naquele dia, Mariana almoçou rápido e voltou logo pro escritório.

Entrou no banheiro pra lavar as mãos e escovar os dentes e percebeu que alguém estava em uma das cabines. 

Silêncio. Algumas fungadas. Chorando, talvez? 

"Deve ser a menina nova", pensou. "Todo mundo saiu pra almoçar junto, só ela foi sozinha."

Sentiu-se mal. Não conhecia a menina o suficiente nem mesmo pra perguntar se estava tudo bem. 

Lavou as mãos rápido e deixou pra escovar os dentes depois. 

Quis evitar o constrangimento para a menina, imagina sair toda inchada, nariz escorrendo, e dar de cara com alguém? 

Depois ela podia convidá-la pra um café, estender a mão, um ombro. Como quem não quer nada, é claro. 

Isso. Mas só depois. 

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Beth almoçou rápido. Na verdade, engoliu a comida. Tinha feito planos pras duas longas horas de almoço que envolviam qualquer coisa menos ser acometida por uma dor de barriga. 

Talvez fosse o remédio que estava tomando. Talvez fosse algo que tivesse comido. E, nesse caso, seriam muitos os suspeitos. 

Mas nada disso vinha ao caso. Ela precisava voltar logo pro escritório. 

Era bom, já que todo mundo tinha ido almoçar junto, então ninguém estaria lá pra ameaçar seu momento. 

Ela não era do tipo de pessoa que conseguia ir ao banheiro com testemunhas. 

"Ainda bem que eu escolhi um restaurante perto", ela pensou enquanto se apressava. 

Confirmou que o escritório estava realmente vazio e correu um pouquinho mais. Chegou ao banheiro e sentiu aquele alívio. 

Ela tinha conseguido. 

Ufa. 

Beth sentou-se no vaso e, antes mesmo que pudesse fazer qualquer coisa, ouviu a porta abrir. 

"Sério? Quem foi a filha da puta que resolveu vir antes? Todo dia elas tiram mais de duas horas de almoço. Todo dia!"

Prendeu a respiração e concentrou-se em não fazer barulhos, mas não aguentaria muito tempo. 

Fungou. "Merda de resfriado". Ok, a colega já sabia que alguém estava lá. 

"Vai embora vai embora vai embora vai embora VAI EMBORA FILHA DA PUTA você nem entrou em cabine nenhuma, eu tô te ouvindo daqui, tá fazendo o que no banheiro esse tempo todo? Affe, será que ela entrou aqui pra chorar? Pelo amor de Deus, que hora errada pra vir aqui chorar, colega..."

Três minutos. Talvez menos. Foi o tempo que alguém ficou do lado de fora. Mas, pra Beth, podiam muito bem ter sido cinquenta. 

Ouviu a porta abrir e bater na sequência. 

Ela teria esperado um pouquinho, só pra se certificar de que estava mesmo sozinha. 

Mas ela não tinha mais tempo nem pra pensar, então...

Foda-se. 


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Qual é a nota?

- Amor?

- Na cozinha.

- E as crianças?

- Com a minha mãe.

- Cara, você não acredita. Lançaram uma versão masculina daquele aplicativo que avalia os caras.

- É mesmo?

- Aham. É pra você saber se as suas amigas são piranhas na cama.

- Nossa, que produtivo. Você tá à caça?

- Claro que não, né Cecília? É pela brincadeira.

- Sei.

- Ah, poxa. Não pode mais brincar?

- Você achou que era brincadeira quando descobriu que tava com nota 6,5 no outro aplicativo?

- Isso não vem ao caso.

- Assim como não veio ao caso o fato de você namorar comigo desde o colégio e sua única outra namorada ter sido a Joana, naquele ano em que eu fiz intercâmbio e você achou melhor terminar pra não sofrer com a minha distância. Adiantou?

- Acho que estarmos tendo essa conversa agora diz que não, né?

- Pois é. Pensei que não.

- Você não entrou naquele aplicativo?

- Não, Paulo. Eu tenho 2 filhos. A Cláudia vem me ajudar só 3 dias por semana. A gente tem babá só nos dias em que a gente resolve transar fora de casa. Eu trabalho. E faço a comida praticamente todo dia. Eu tô pouco me fudendo pra esse aplicativo.

- Você me irrita, sabe? Com essa sua praticidade.

- Ok.

- É sério.

- Tá bom.

- O que você tá fazendo?

- O jantar.

- Sabe que tem uma avaliação sua no tal aplicativo?

- Mentira. Deixa eu adivinhar. Foi você quem fez?

- Foi. Hahaha...

- E você disse que eu sou uma piranha?

- Claro que não! Você é a mãe dos meus filhos! Coloquei que você transa de luz apagada e curte papai-e-mamãe. Nada de boquete.

- Que maravilha.

- Você tá sendo irônica?

- Na verdade eu tô imaginando como seus amigos estão pensando que é sua vida sexual agora. Tipo. Uma baita merda, né? Vai ser ótimo o clima na próxima reunião aqui em casa.

- Porra, nem tinha pensado nisso. Pera. "Vadia". "Cachorra". "Curte tapas". "Transa de 4". Pera... Tá. Agora sim.

- Ficou parecendo uma atriz pornô.

- Né?

- Vai ser ótimo na próxima reunião do colégio das crianças.

- Caralho, Cecília! Eu não dou uma dentro! O que você quer que eu faça?

- Que você pare de perder seu tempo com idiotice. Continuo pouco me fudendo. Vai lá e bota a mesa que o jantar tá quase pronto.

- Tá...

- Ah...

- Que?

- Hoje eu quero de quatro.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Inimigas

- E aí?

- E aí o que?

- Me conta!

- O que?

- Sobre aquela menina lá, que tava falando de você, das amigas e tal.

- Ah!

- Então?

- Sei lá.

- Parou?

- Não sei.

- Você foi lá tirar satisfação?

- Não, eu tinha um cupom pra batata frita extra naquela lanchonete perto do trabalho.

- E daí?

- Me pareceu mais importante aproveitar do que perder meu tempo com briga besta.

- Não entendi.

- Qual parte?

- Ah, até pouco tempo você tava me contando sobre o quanto ela te difamou, que você quase perdeu seu emprego por causa disso, o namorado, que sua vida tava indo pro brejo.

- Pois é.

- O que mudou?

- Eu entendi que eu não tava na quinta série.

- Oi?

- É. Não era ela que tava me causando problemas no trabalho. Ou no relacionamento. Ou na vida. Era o tempo que eu perdia com algo que deveria ser ignorado. Pensa bem. O que essa menina sabe de mim?

- Nada?

- Nada e mais alguma coisa ou outra que ela ouviu falar de sei lá quem que leu na minha rede social por causa de um compartilhamento x. Tá acompanhando?

- Acho que sim.

- Eu tava gastando energia demais com isso. Resolvi comer batata frita.

- E ela sumiu?

- Sei lá.

- Pera, meu celular tá apitando. Amiga, você não acredita. Sabe a Lurdinha?

- Ahm.

- Aquela ex-namorada do irmão da Luciana.

- Sei.

- Adivinha COM QUEM ela tá trocando mensagem. E SOBRE QUEM.

- Cara.

- Sério, você não acredita o que ela tá falando aqui.

- É sobre batata frita?

- Claro que não.

- Então foda-se.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Terapia

- Quanto tempo, Marília. A que devo a honra de sua visita?

- Visita. Visita. Não sei se gosto muito desse seu deboche, doutora. Talvez por isso tenha ficado tanto tempo longe.

- Pouco provável, se bem te conheço, deve ter algo que está atiçando sua ansiedade.

- Você realmente acha que me conhece muito, né?

- Bom, são anos sendo sua terapeuta. Seis anos, talvez?

- Quase sete.

- Perfeito. Quase sete. A que devo essa consulta? Qual é a emergência?

- O Du.

- O que tem ele?

- Ah, você sabe. Minhas amigas me mandaram mensagem pra comentar sobre a esposa dele, que eles estavam em Paris ou coisa parecida. Justo Paris.

- O que tem Paris?

- Nós sempre pensamos em viajar pra lá.

- Hum.

- O que?

- Muita gente pensa em viajar pra lá. Não é exatamente como se você tivesse exclusividade nisso. Paris.

- Você é meio insensível, né?

- Pode ser. Mas não nesse caso. Há quanto tempo vocês estão separados?

- 5 anos.

- Pois é. 5 anos.

- E?

- Quem foi que terminou?

- Eu.

- E por que?

- Porque eu tava cansada dele.

- Pois é. E?

- E o que?

- Continua, Marilia.

- O que?

- Continua, Marilia.

- Ok. Eu nunca gostei dele como ele gostava de mim.

- É isso?

- Eu nunca gostei dele. Eu fiquei com ele porque ele gostava de mim e eu nunca gostei da ideia de estar sozinha.

- Não é melhor você falar isso em voz alta?

- Não.

- Talvez por isso nós estejamos há quase 7 anos em uma conversa que mais parece aquele filme, o Dia da Marmota.

- Não sei se essa sua abordagem é muito ortodoxa.

- Interessante.

- O que?

- O quanto você odeia ser confrontada.

- Isso não é verdade.

- O que suas amigas pensam disso tudo?

- Que ele é um cretino.

- Por que?

- Por causa de tudo que ele fez comigo, é claro.

- E o que ele fez contigo?

- Isso não vem ao caso.

- É mesmo?

- Bom, elas acham que ele me abandonou quando soube que eu estava grávida.

- Um momento. Eu não lembro de ter anotado isso aqui. Grávida?

- Sim.

- Pulamos essa conversa?

- Não. Eu não estive grávida.

- E?

- Eu não queria que elas soubessem que eu tenho pavor da ideia de morrer sozinha que nem minha mãe e minha tia.

- Então é melhor mentir?

- Grande merda, elas não iam continuar falando com ele mesmo, que diferença faz?

- Meu Deus, Marilia...

- Eu acho que você está exagerando, sabe?

- Ok. E seus pais?

- O que é que tem?

- O que eles pensam disso tudo?

- Bom, meu pai acha que ele é um canalha por ter me largado, é claro.

- Por causa do bebê?

- Pirou? Você realmente acha que eu ia deixar meu pai pensar que eu tava grávida?

- Só falta você me dizer que ele ainda acha que você é virgem.

- ...

- Mesmo com vocês tendo morado juntos?

- ...

- Hum. Sua mãe?

- Eu nunca tive que dizer nada pra ela. Ele foi embora e ela entendeu que eu era a vítima. Como ela foi.

- Claro. Da última vez que você veio aqui havia um rapaz na sua vida.

- Sim, o Beto.

- E?

- Estamos namorando.

- E o que ele pensa sobre essa sua obsessão com seu ex?

- Que obsessão, doutora?

- O que ele pensa?

- Ele não sabe. Tudo que ele sabe é que minhas amigas gostam muito mais dele do que daquele canalha.

- Ok. Ainda não entendi exatamente o que te trouxe aqui, já que você insiste que não tem nenhum problema. Não pode ser só Paris.

- Não. Ele vai ser pai. Já é, na verdade. O filho dele nasceu essa semana. No dia em que eu te liguei.

- E como isso te fez sentir?

- Você sabe, nós sempre pensamos...

- Não, não é verdade. Você nunca quis ter filhos, sempre disse que não queria ser sua mãe. Chegou a pensar em soluções definitivas, eu sugeri que conversássemos mais um pouco antes de você tomar qualquer decisão tão drástica.

- Você realmente anota tudo nesse caderninho, né?

- Sabe, eu acho que você confunde um pouco terapia com uma igreja, ou algo parecido.

- Não entendi.

- Você acha que vai fazer o que te der na cabeça fora daqui, vai ignorar tudo que conversamos, vai chegar aqui e me contar tudo e eu simplesmente vou te receitar algumas coisas, umas aves marias ou coisa parecida e você vai sair daqui leve e absolvida. Não é assim que funciona. Eu acho que você conseguiu não mudar absolutamente nada a seu respeito desde que entrou aqui a primeira vez.

- Você tem certeza de que isso é apropriado para uma terapeuta?

- Talvez não seja, Marilia. Mas eu já estou me sentindo incapaz de fazer qualquer coisa por você. E eu preciso te dizer isso, não dá pra simplesmente continuar aceitando seu dinheiro sem que esse trabalho surta nenhum efeito. É pelos remédios?

- Claro que não!

- Você não pode continuar vivendo nessa fantasia. Esse mundo incrível em que você não comete erros e todo mundo que se relaciona com você é tão mal caráter, sabe? Você parece só manter por perto quem bate palma pra você dançar.

- Você acabou de me chamar de maluca?

- Claro que não, isso seria completamente inadequado.

- Ah tá! ISSO seria inadequado.

- Ok. Você acha que eu estou errada?

- Não sei.

- Você acha que eu estou errada?

- Não. Mas...

- Você tem medo de ficar sozinha.

- E se eu for honesta?

- Algumas pessoas talvez te deem as costas. Mas outras podem ficar. Você não prefere assim?

- Não sei.

- Não te cansa fingir ser outra pessoa? Pior. Não te cansa fingir ser tantas pessoas? Porque seus amigos veem uma versão de você que seus pais sequer conhecem, e nenhuma delas é real. A não ser que...

- Que o que?

- Que você também tenha uma personagem pra mim.

- Não.

- Não?

- Não, aqui eu sou eu mesma. Acho que você gritaria comigo se eu fingisse qualquer coisa.

- Que absurdo.

- O que você quer que eu faça?

- Que você fale a verdade.

- Sobre?

- Por que você está aqui?

- Porque ele não morreu.

- Oi?

- Quando eu terminei com ele. Ele disse que ia morrer sem mim. Mas ele não morreu. Ele encontrou outra. Ele se casou. Eles tiveram um filho. E eu nem posso saber se o menino é lindo ou se ele é vesgo, porque ele me bloqueou em todas as redes sociais, eu não tenho acesso a ele.

- E você o culpa?

- Não.

- Marilia, o que você tem a ver com a vida dele?

- Não deveria ter sido tão fácil ele viver sem mim.

- Você nunca gostou dele, essa moça, a esposa dele, deve gostar. Eles constituiram família. A vida deles é deles e não tem absolutamente nada a ver com você. Já se passaram 5 anos, Marilia. Desculpa eu te dizer isso, mas o mundo não gira em torno de você.

- Certeza mesmo de que esse seu método é aceitável?

- Nós tentamos abordagens mais suaves e olha no que deu.

- E o que eu faço?

- Você precisa desapegar dessas vidas paralelas, dessas suas fantasias e começar a lidar com a realidade. Mesmo que ela seja menos colorida do que esses mundos que você inventou pra viver. Precisa contar a verdade pra quem te cerca e arcar com as consequências.

- E se eu não quiser?

- Eu terei de recomendar que você procure outro terapeuta.

- Mas...

- Desculpa, eu não posso continuar. É frustrante pra mim também.

- E se eu não estiver pronta?

- Você pode ir um de cada vez. Seus amigos, seus pais, seu namorado. Mas você precisa começar. Você tem 35 anos, Marilia. E sua vida quase inteira foi perdida nessa brincadeira.

- ...

- Pode chorar.

- Você vai me abandonar.

- Não vire a mesa.

- Não estou...

- Está sim. Quase 7 anos. Fora os 56 que eu mesma já vivi.

- Ok. Você é uma cretina.

- Somos duas então.

- ...

- A diferença é que eu estou sendo uma cretina pro seu bem.

- Isso é...

- Olha! Acabou nosso tempo. Tenho outro paciente, ele já deve estar esperando. Me liga semana que vem pra marcar a próxima sessão.

- Eu odeio você.

- Considerando que todos esses anos você viveu se odiando, fico feliz com a novidade. Até a próxima sessão. Carlos! Vamos entrar? Tchau, Marilia.