terça-feira, 23 de julho de 2013

Então...

- Você tá proibido de morrer, tá? - Ela disse como se fosse a coisa mais natural do mundo, ou como se a conversa tivesse caminhado para tal desfecho. Na verdade estavam quietos há algum tempo na cama.

Ele já tinha quase dormido.

- Que, Aline? De onde você tirou isso?

- Lugar nenhum. Só não morre.

Um dos melhores amigos de colégio de seu irmão tinha morrido há pouco tempo e desde então ela vinha pensando nisso. Na morte. E nas pessoas que ela amava morrendo.

- Não é que eu não fosse saber viver sem você, sabe, Rafa. É só que eu não quero. Tipo. Eu amo nossa vida. Eu amo você. E eu não tô pronta pra não ter isso aqui. Não agora. Tem tanta coisa pra gente fazer.

- Tipo o que?

- Viajar pra fora do país. Adotar um cachorro. Ter um apartamento maior. Um fogão industrial pra eu fazer comida de verdade. Filhos.

- Aline, você tá tentando me dizer alguma coisa?

- Sim, que você tá proibido de morrer.

- Só isso? Sua menstruação tá em dia, né?

Silêncio.

- ALINE?

- Babaca.

- Cara, me responde.

- Eu aqui pensando na minha vida sem você e você aí tenso porque acha que eu tô dando volta pra te contar alguma coisa?

- Não seria a primeira vez.

- Não tô grávida.

- Ok.

- Mas não morre. Tá?

- Eu não posso te prometer uma coisa dessa. Ninguém sabe o dia de amanhã. Mas se eu morrer, você sabe que eu sou doador de órgãos, né? E eu quero ser cremado.

- Affe, por que você tá falando isso?

- Porra, foi você que começou!

- Mas eu não queria entrar na burocracia da sua morte. Só tava decretando que você tava proibido de morrer. Tava não. Tá.

- Ok, czarina. Estou proibido de morrer. Entendi. Mas se eu morrer, já sabe. E joga minhas cinzas no Maracanã.

- Bem seu tipinho mesmo. Fazer exatamente o contrário do que eu tô te pedindo. Beleza, vou espalhar você todo pela torcida do Fluminense.

- Justo do Fluminense, Aline? Puta que pariu!

- Sim. Se você pode morrer pra me contrariar, eu posso te condenar a passar o resto da sua vida na torcida do Fluminense.

- Ok, eu vou atormentar a torcida do teu time pra toda a eternidade. Nenhuma vassoura, nenhum aspirador de pó, merda nenhuma vai tirar a minha zica daquela torcida e a culpa vai ser sua. Tá pronta pra ser responsável pela maldição das Laranjeiras? Tá?

- Cala a boca, Rafael. Eu não quero mais falar sobre isso.

- Ótimo. Boa noite.

Silêncio.

- Amor?

- Hum?

- Tá dormindo?

- Tô.

- Tá nada, tá falando comigo.

- Fala, Aline.

- Você vai casar de novo se eu morrer?

- Nem vem que eu não vou cair nessa, não vou responder essa merda nem fudendo.

- Affe. Tá. Mas você tá proibido de morrer.

Um comentário:

Jôsy Graciano disse...

Amei o conto!
Super minha cara dar esse tipo de "ordem"... Já fiz isso com meu marido, mas acabei chorando feio criança...
Parabéns pela boa escrita
http://frescurinhasperformaticas.wordpress.com/