sábado, 18 de dezembro de 2010

Vida real

Um dia, ela falou a verdade

E acabou o tesão.

A ele só interessava, de fato,

fantasiar com a ficção.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Tamanho

Não era um gigante de verdade.

Fazia os outros se sentirem pequenos pra que pudesse parecer maior.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Visita

Foi sem querer, mas lá estava ela passando perto do prédio onde morou durante tanto tempo. Não resistiu e contou as janelas. Sétima, à esquerda, de baixo pra cima.

As cortinas ainda estavam lá, as suas cortinas. Ainda eram as mesmas.

Pensou nos móveis, se tudo estaria igual.

Lá estava, toda uma vida. Sua vida.

Seguindo apesar dela.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

Aqui, lá

Acordou antes dele e ficou observando seu rosto. Ficaram tanto tempo separados e, em uma noite, era como se  ele nunca a tivesse deixado.

Devia ser isso a tal da sintonia.

domingo, 26 de setembro de 2010

Proposta

Ela disse sim, e enquanto o fazia percebeu que nem de longe aquele era o momento mais feliz de sua vida.

Trocaria aquela cerimônia por reviver infinitas vezes o dia em que ele a pediu em casamento, meio desajeitado, tentando ser tão romântico quanto os mocinhos dos seriados de TV que ela acompanhava.

O dia em que ele chorou ao ouvi-la dizer que sim, queria se casar com ele. Aquele dia ela guardaria pra sempre.

Ela não precisava de testemunhas.

domingo, 19 de setembro de 2010

Perto

Podia ouvir as mulheres na mesa ao lado reclamando dos maridos e namorados, da falta de atenção, de carinho, que as trocavam por qualquer jogo de segunda divisão de campeonato, ou pelada com os amigos.

Esqueciam datas importantes, e até mesmo de avisar que se atrasariam pro jantar.

Compravam os presentes errados, por estarem ocupados demais pra prestar atenção quando sutilmente sugeriam exatamente o que queriam ganhar, em detalhes de cor e tamanho.

Não sabiam suas comidas, cores, músicas ou programas de TV favoritos, e sempre achavam que qualquer alteração de humor eram porque estavam naqueles dias.

Pensou na conversa que tivera com o seu namorado no dia anterior, pelo Skype, em como contaram um pro outro sobre seus respectivos dias, o que haviam feito, sobre como falavam sobre tudo. Em como ele reparava em qualquer mudança que fizesse na sobrancelha; como dizia que seu cabelo curto tinha ficado lindo, por mais que adorasse um cabelo comprido; em como a achava linda de preto, por mais que preferisse cores mais vibrantes; em como elogiava suas unhas azuis, mesmo preferindo esmaltes vermelhos; em como sempre avisava que não chegaria em casa cedo, apesar de estar em outra cidade e isso não afetar os planos do jantar.

Percebeu que, por mais que a saudade fosse companheira constante, a distância não era, nem de longe, o maior problema em um relacionamento.

domingo, 12 de setembro de 2010

Despedidas

Sentia-se culpada por nunca mais ter ligado.

Até perceber que também não ligavam pra ela.

"Vamos manter o contato" era só uma formalidade.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

domingo, 5 de setembro de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A próxima estação

Carol devia ter seus 3 anos de idade e já entrou no vagão do metrô, com sua mãe e os 3 irmãos, aos prantos. Chorava tanto, que seu nariz escorria.

Seriam invisíveis, se não carregassem tantas coisas e não estivessem sujos. Daí se tornaram incômodos. Os que não os ignoravam, lançavam olhares de pena. Eu apenas os observava.

Carol trocava as perninhas com o sabido desespero de quem precisa muito fazer xixi. A mãe dizia que a tia lhe havia sugerido que ficasse, mas ela preferiu ir embora, agora teria de esperar chegar.

- A Sé é a próxima? - perguntou a mãe.

- Ainda faltam 4 estações. - Respondi, enumerando cada uma.

- Falta pouco, Carol, segura, não pode fazer xixi aqui.

A menina só chorava e andava de um lado pro outro.

Quando o metrô chegou à Sé, tirei a mala do caminho para que a mulher pudesse passar com todas as sacolas e crianças. Carol foi a primeira a correr pra plataforma, transformando a primeira pilastra que achou em banheiro. Ao me ver mexendo na mala, o irmão mais velho sorriu pra mim:

- Você também vai descer aqui?

Disse que não, mas acenei uma despedida. Ele continuou acenando até o trem partir.

Enquanto uns se divertiam com a menina fazendo xixi na estação, eu só conseguia ver o rosto daquele menininho, com a ingenuidade que só uma criança consegue ter.

Chorei até a estação Tietê.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Recortes

Deitados na cama, a luz apagada, só o barulho do ventilador quebrando o silêncio do quarto.

- Se você pudesse escolher um lugar pra estar agora, onde seria? - perguntou ela.

- Aqui.

- Nesse quarto?

- No seu pescoço.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Pontuação

Não gostava de pontos finais.

Preferia as exclamações e até as reticências

eram melhores que pontos finais.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Segredo

Não sei como te dizer o que eu quero te dizer, então escondo de você.

E finjo que não me importo.

Pequenezas

Ela sorriu ao ver o par de chinelos dele encostado na entrada de casa.

Lembrou do pijama no armário e ficou feliz por saber que logo ele estaria de volta.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Insosso

Volta e meia, se pegava pensando em como explicar a ele que todo aquele seu destempero causava nela tamanho dissabor.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Inversão

Foi triste perceber que a ela faltava maldade.

Por uma questão de sobrevivência, ela precisava ser pior.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Mingua

-Você vê o coelho na lua? - perguntou o rapaz. - Quem vê o coelho é porque está apaixonado.

-Claro. Um coelho. Estou vendo!

Era mentira. Ela só via uma grande bola de queijo. Mas isso explicava muita coisa.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Engasgo

Ela o observava com agonia, parecia ter dificuldade em respirar, ou coisa assim.

-Você está bem?

Ele nada dizia.

-Você parece entalado, sufocado, com alguma presa na garganta.

Ele apenas se debatia.

-Bota pra fora, vai te fazer melhor. Vai...

Ele tossiu, bateu no peito, tentou, tentou, até que saiu.

-Eu... Eu... Eu te amo!

Ela o fitou por alguns instantes e, cheia de compaixão, o abraçou.

-Calma, vai passar... Vai passar...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Interpretações

Toda hora se encontravam pelos corredores do prédio, e ela sempre ficava com a impressão de que a vizinha a observava. Mais ainda, que a julgava.

Pegando a correspondência.

“Lá está ela, recebendo aquelas revistas intelectualóides, deve estar me achando uma imbecil porque leio essas revistas de dieta e exercícios. Deve achar que eu sou fútil e não me preocupo com nada importante.”

Jogando o lixo fora.

“Ela separa lixo. Eu queria separar lixo, mas não sei o que vai com o que, onde deixo, pra onde vai, o porteiro não sabe me dizer, também não vou perguntar pra ela, senão ela vai deixar de achar pra ter certeza de que eu sou uma besta ignorante. E essas caixas de comida pronta, lasanha, sacos de fast food, agora ela acha que eu só como porcaria, por isso sou gorda.”

No elevador.

“Bicicleta. Ela anda de bicicleta. E eu não saio nem pra caminhar. Claro que ela deve me achar uma gorda fútil que não recicla, uma preguiçosa que só come porcaria. Enquanto isso, ela vai de bicicleta pro trabalho. Aposto que tem essas sacolas recicladas bacanas pra ir ao supermercado e só compra orgânicos e comida integral e...”

-Oi.

-Ahm, oi.

-Você mora no apartamento do meu lado, né?

-Sim.

-A gente sempre se esbarra, eu sempre tive vontade de falar com você, mas você sempre passa muito rápido, está sempre com pressa.

-Ah, não, é que...

-Tudo bem, eu só queria me apresentar e perguntar se você de repente não gostaria de passar lá em casa mais tarde, quando você chegar do trabalho, quem sabe. Eu vou fazer uma massa, tomar um vinho.

-Ahm, erm...

-Você é quem sabe. Eu só acho você linda, sempre quis ter coragem de falar com você, te conhecer melhor. Quem sabe...

-O elevador...

-Ah, obrigada. Bom, se você quiser, massinha, vinho. Apartamento 101.

...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Canção de roda

O bule que me deu se quebrou.
Caiu no chão e se desfez em caquinhos.
Era vidro, era frágil.
Como o seu amor.
Era pouco.
Se acabou.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Começa cedo

5 anos, sentada confortavelmente em sua cadeirinha acoplada ao banco de trás, do alto de seus 20 quilos, ela dispara:

- Gente, será que não dá para chegar mais pro lado, porque está muito apertado aqui.
- Não dá pra chegar pro lado, nós estamos apertados, você está com bastante espaço na sua cadeirinha e ainda está protegida por essa barrinha de apoiar braço.
- Sabe o que é? Essa barrinha ocupa muito espaço.
- Ah, sim. E você é enorme, né?

Pausa. Ela ajeita os cabelos encaracolados, lança um olhar pensativo e manda:

- Você está me chamando de gorda?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Meias mentiras

Quando olhei nos teus olhos e disse que fosse embora, que estava tudo acabado entre nós, eu menti.

Foi capricho, ainda te amava, queria te ver rastejando, implorando que eu ficasse, que sem mim não saberia viver.

Só não imaginei, do alto da minha vaidade, que você iria, simplesmente, concordar.

domingo, 28 de março de 2010

Cotidiano

- Algo de errado? Você está estranha.

- Não sei se te amo.

- Quem falou de amor?

- Eu. Na verdade, falei que não sei se te amo.

- E de onde veio isso?

- De mim. De lugar nenhum. Estava pensando no que sinto por você e percebi que não sei se te amo. Mas sei que gosto de você.

- E isso não é um começo?

- Acho que sim. Será que eu deveria te amar?

- Não sei.

- Você me ama?

- Não sei. Eu gosto de você.

- É um começo.

- E é por isso que você estranha?

- Não. Estou pensando no que fazer para o almoço amanhã. Quero impressionar sua família.

- Fica calma. Eles vão gostar de você. Não importa o que você fizer para o almoço.

- Pensei em fazer peixe.

- Minha mãe não gosta de peixe.

- Tá. Eu penso amanhã.

- Vamos dormir?

- Vamos. Boa noite.

- Boa noite.

- Me abraça?

terça-feira, 23 de março de 2010

Cuidados

Se cuida. Havia poucas expressões que a irritassem tanto quanto 'se cuida'.

Continha uma forte carga de 'agora que você está sozinha', 'que não é mais problema meu', 'que eu não estarei aí pra cuidar de você'. Quase um 'se vira'.

Era, na grande maioria das vezes, um adeus, ou, no mínimo, um até logo em que o logo nunca chegava.

Até que ela descobriu que 'se cuida' poderia vir acompanhado de saudade genuína, de vontade de estar perto pra cuidar de verdade. E o 'se cuida' passou a vir com sobrenome.

'Se cuida, do jeito que eu cuido de você'.

E ela parou de se incomodar tanto.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Amorico

Acho lindo isso de namoro de portão, daqueles quase de criança, de ter de ficar sempre à vista e tomar cuidado pra não fazer nada que alguém possa desaprovar.

Daqueles em que se dá mais valor às coisas pequenas, tipo beijar na boca, pegar na mão, dedicar música que lembre aquele dia legal em que vocês tomaram sorvete juntos pela primeira vez, mais beijo na boca, mandar recadinhos românticos, escrever cartas de amor tão ridículas quanto cartas de amor devem ser, dizer que gosta, gosta mesmo, gosta de verdade de alguém, de sentir borboletas voando na barriga.

Gosto da ideia do namorinho bobo, sem preocupações, sem todos os problemas que só gente grande consegue inventar, parece que só pra estragar algo que as meninas acreditam, como princesas que são, que pode fazê-las felizes para sempre.

Às vezes, eu sinto falta dessa inocência.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Partida

Preso à porta da geladeira, ela encontrou um curto bilhete.

"Com você eu posso ser eu mesmo. O problema é que eu não gosto de mim."

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Caracóis

Lamento os cabelos presos num coque e penso que

talvez devesse meter a tesoura e deixar pelo chão

os puxões apaixonados, os cafunés carinhosos

e o cheiro do seu colo, entranhado nos fios, que

shampoo nenhum consegue tirar.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Ausência

Nunca percebi que sentia falta das coisas que deixei de lado por você.

Quando você foi embora, foi fazendo todas elas de novo que percebi

Que já não sentia mais a sua falta.