quinta-feira, 11 de abril de 2013

Bens

Sempre que um relacionamento chega ao fim parece que se abrem alguns universos paralelos. Três, ao menos, com certeza. O primeiro se baseia em um. O segundo se baseia no outro. O terceiro, na falta de nome melhor, poderia ser a verdade.

Quando Lígia e Raul se divorciaram, parecia impossível imaginar um mundo em que os dois fossem o casal perfeito.

O processo demorou um tempo, mas pra quem tava de fora, foi do nada. Da noite pro dia, eles deixaram de ser melhores amigos que conversavam sobre tudo pra ser aqueles loucos que brigavam pela poltrona do escritório.

A maldita poltrona do escritório.

E nem era uma poltrona bonita. Falando muito honestamente, aquela talvez fosse a poltrona mais feia da história da decoração moderna.

Sequer era confortável.

Servia mais de cabideiro, estante e suas variantes do que como poltrona propriamente dita.

Mas lá estavam os dois brigando por ela.

Lígia e Raul se conheceram na faculdade logo se tornaram aquele casal insuportável, que parecia existir como se soubesse de algo que o resto do mundo não sabia.

Coisa de música, superaram toda barra mais pesada que tiveram.

Ou quase.

Ninguém viu acontecer. Talvez nem eles tenham visto.

Acordaram um dia brigando pela poltrona. A poltrona que ELE escolheu, aquela vadia. A poltrona que ELA comprou, aquele egoísta.

A poltrona onde ele percebeu que a amava o suficiente pra pedi-la em casamento. A poltrona em que ela disse sim. A poltrona onde ele planejou a família que teriam juntos. A poltrona em que ela contou pra ele que não podia ter filhos.

Dividiram os livros.

Dividiram os discos.

Dividiram até os amigos.

O problema era a poltrona.

Justo aquela poltrona maldita que nem combinava com nada.

Um comentário:

Anônimo disse...

Final irônico rs Gostei :)