sexta-feira, 11 de abril de 2014

Capítulo

Era quinta-feira. E, como em toda quinta-feira, Amanda botou o Kindle na bolsa e foi almoçar com um livro.

- Lá vem você com a concorrência aqui de novo.

- Um dia vocês ainda vão me cobrar rolha por isso, né?

- Enquanto você continuar comprando livros de verdade e consumindo no nosso café, acho que podemos te garantir o desconto. Mas não abusa!

- Prometo.

- O de sempre?

- Sim, mas hoje eu quero uma tacinha de vinho.

- Hmmm... Esse livro deve ser bom mesmo, hein?

- É sim, é um daqueles.

- Já volto.

Amanda abriu o livro e continuou de onde havia parado. Faltava pouco agora, com 95% da história já completados, ela só conseguia pensar em quanto tempo ela reencontraria o amigo.

Ela já sabia que as coisas não acabariam bem, afinal, era um livro sobre guerra.

- O rapaz da mesa 3 já se ofereceu pra pagar seu vinho.

- Não, obrigada.

- Já avisei, só repassando a informação.

Ela já estava acostumada com o incômodo que causava nas pessoas com sua insistência em sentar-se sozinha vez ou outra. Fosse pra ler, comer, beber, ou simplesmente rabiscar numa folha de guardanapo enquanto ouvia música.

Aparentemente, mulher só fica sozinha na mesa até aparecer companhia.

"Não, obrigada" - ela respondia e acenava com a cabeça, a fim de não parecer mal educada. Não que ela se importasse tanto assim com o sentimento de estranhos, mas as pessoas tendiam a se comportar de forma irritantemente insistente diante de uma grosseria.

Mesmo que merecida.

- Eu sou mais interessante que esse tablet.

- É um Kindle.

- Tudo bem. Eu sou mais interessante que esse Kindle.

- Que bom.

- Posso sentar?

- Não, eu estou lendo.

- Você pode ler depois, não pode?

- Posso. Mas eu quero ler agora.

- Você é dessas que se faz de difícil, né?

- Como você se chama?

- Joaquim.

- Prazer, Joaquim. O Carlos te agradeceu pela oferta do vinho, né?

- Quem é Carlos?

- O garçom por intermédio de quem você tentou me cantar.

- Ah, sim. Ele agradeceu sim.

- Ele disse que eu não estava interessada?

- Disse.

- Você veio até aqui mesmo assim, né?

- Sim, claro.

- Só pra eu te dizer pessoalmente o mesmo "não, obrigada" que o Carlos tinha te dito?

- Foi o que você disse, sim.

- Só estou tentando acompanhar seu raciocínio, entender a dificuldade.

- Que dificuldade?

- De compreensão.

- Minha?

- Claro, porque eu refiz o caminho todo aqui e percebi que não poderia ter sido mais fácil. Você se ofereceu e eu agradeci. Mas não.

- Que antipática você.

- Você não sabe lidar bem com rejeição, né?

- Por isso fica sozinha aqui.

- Na verdade, eu quero estar sozinha aqui. E se você tivesse aceitado minha resposta eu já teria terminado mais um capítulo.

- Beleza, você vai se arrepender. Eu sou bem melhor que essa merda de livro aí.

- Eu duvido muito. Se você é inconveniente com estranhos, imagina o que você não deve ser chato como namorado? Ou marido? Prefiro nem correr o risco.

- Vaca.

- Ok.

Joaquim nem pediu a conta ao garçom. Jogou uma nota de 50 que certamente pagaria pelos cafés que ele tomou e pelo vinho dela.

Não esperou pelo troco, tampouco planejava voltar ali.

- Ficou puto o rapaz.

- Reparei.

- Mas pelo menos deixou uma gorjeta boa. De repente a gente pode combinar um esquema, fazer isso mais vezes.

- Carlos?

- Me deixa ler?

- Me deixa ler.

Finalmente, a personagem conseguia reencontrar o amigo. Amanda começou a chorar em pleno café.

Carlos aproveitou a deixa pra renovar o estoque de guardanapos da mesa.

- Traz outra taça de vinho?

- Claro.

Mais 10 páginas pra ela saber o que aconteceu naquela maldita guerra, que fim levou a personagem, se ela morreria, sobreviveria, se alguém teria um final feliz.

Era isso que Amanda não entendia nas pessoas que sentiam pena dela, ali, desacompanhada.

Enquanto ela tivesse um livro, ela definitivamente não estaria sozinha naquela mesa.

2 comentários:

Priscila Brasil disse...

Apenas: sim.

Fernanda disse...

Quem tem um livro nunca está desacompanhada...