- E aí?
- E aí o que?
- Me conta!
- O que?
- Sobre aquela menina lá, que tava falando de você, das amigas e tal.
- Ah!
- Então?
- Sei lá.
- Parou?
- Não sei.
- Você foi lá tirar satisfação?
- Não, eu tinha um cupom pra batata frita extra naquela lanchonete perto do trabalho.
- E daí?
- Me pareceu mais importante aproveitar do que perder meu tempo com briga besta.
- Não entendi.
- Qual parte?
- Ah, até pouco tempo você tava me contando sobre o quanto ela te difamou, que você quase perdeu seu emprego por causa disso, o namorado, que sua vida tava indo pro brejo.
- Pois é.
- O que mudou?
- Eu entendi que eu não tava na quinta série.
- Oi?
- É. Não era ela que tava me causando problemas no trabalho. Ou no relacionamento. Ou na vida. Era o tempo que eu perdia com algo que deveria ser ignorado. Pensa bem. O que essa menina sabe de mim?
- Nada?
- Nada e mais alguma coisa ou outra que ela ouviu falar de sei lá quem que leu na minha rede social por causa de um compartilhamento x. Tá acompanhando?
- Acho que sim.
- Eu tava gastando energia demais com isso. Resolvi comer batata frita.
- E ela sumiu?
- Sei lá.
- Pera, meu celular tá apitando. Amiga, você não acredita. Sabe a Lurdinha?
- Ahm.
- Aquela ex-namorada do irmão da Luciana.
- Sei.
- Adivinha COM QUEM ela tá trocando mensagem. E SOBRE QUEM.
- Cara.
- Sério, você não acredita o que ela tá falando aqui.
- É sobre batata frita?
- Claro que não.
- Então foda-se.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Terapia
- Quanto tempo, Marília. A que devo a honra de sua visita?
- Visita. Visita. Não sei se gosto muito desse seu deboche, doutora. Talvez por isso tenha ficado tanto tempo longe.
- Pouco provável, se bem te conheço, deve ter algo que está atiçando sua ansiedade.
- Você realmente acha que me conhece muito, né?
- Bom, são anos sendo sua terapeuta. Seis anos, talvez?
- Quase sete.
- Perfeito. Quase sete. A que devo essa consulta? Qual é a emergência?
- O Du.
- O que tem ele?
- Ah, você sabe. Minhas amigas me mandaram mensagem pra comentar sobre a esposa dele, que eles estavam em Paris ou coisa parecida. Justo Paris.
- O que tem Paris?
- Nós sempre pensamos em viajar pra lá.
- Hum.
- O que?
- Muita gente pensa em viajar pra lá. Não é exatamente como se você tivesse exclusividade nisso. Paris.
- Você é meio insensível, né?
- Pode ser. Mas não nesse caso. Há quanto tempo vocês estão separados?
- 5 anos.
- Pois é. 5 anos.
- E?
- Quem foi que terminou?
- Eu.
- E por que?
- Porque eu tava cansada dele.
- Pois é. E?
- E o que?
- Continua, Marilia.
- O que?
- Continua, Marilia.
- Ok. Eu nunca gostei dele como ele gostava de mim.
- É isso?
- Eu nunca gostei dele. Eu fiquei com ele porque ele gostava de mim e eu nunca gostei da ideia de estar sozinha.
- Não é melhor você falar isso em voz alta?
- Não.
- Talvez por isso nós estejamos há quase 7 anos em uma conversa que mais parece aquele filme, o Dia da Marmota.
- Não sei se essa sua abordagem é muito ortodoxa.
- Interessante.
- O que?
- O quanto você odeia ser confrontada.
- Isso não é verdade.
- O que suas amigas pensam disso tudo?
- Que ele é um cretino.
- Por que?
- Por causa de tudo que ele fez comigo, é claro.
- E o que ele fez contigo?
- Isso não vem ao caso.
- É mesmo?
- Bom, elas acham que ele me abandonou quando soube que eu estava grávida.
- Um momento. Eu não lembro de ter anotado isso aqui. Grávida?
- Sim.
- Pulamos essa conversa?
- Não. Eu não estive grávida.
- E?
- Eu não queria que elas soubessem que eu tenho pavor da ideia de morrer sozinha que nem minha mãe e minha tia.
- Então é melhor mentir?
- Grande merda, elas não iam continuar falando com ele mesmo, que diferença faz?
- Meu Deus, Marilia...
- Eu acho que você está exagerando, sabe?
- Ok. E seus pais?
- O que é que tem?
- O que eles pensam disso tudo?
- Bom, meu pai acha que ele é um canalha por ter me largado, é claro.
- Por causa do bebê?
- Pirou? Você realmente acha que eu ia deixar meu pai pensar que eu tava grávida?
- Só falta você me dizer que ele ainda acha que você é virgem.
- ...
- Mesmo com vocês tendo morado juntos?
- ...
- Hum. Sua mãe?
- Eu nunca tive que dizer nada pra ela. Ele foi embora e ela entendeu que eu era a vítima. Como ela foi.
- Claro. Da última vez que você veio aqui havia um rapaz na sua vida.
- Sim, o Beto.
- E?
- Estamos namorando.
- E o que ele pensa sobre essa sua obsessão com seu ex?
- Que obsessão, doutora?
- O que ele pensa?
- Ele não sabe. Tudo que ele sabe é que minhas amigas gostam muito mais dele do que daquele canalha.
- Ok. Ainda não entendi exatamente o que te trouxe aqui, já que você insiste que não tem nenhum problema. Não pode ser só Paris.
- Não. Ele vai ser pai. Já é, na verdade. O filho dele nasceu essa semana. No dia em que eu te liguei.
- E como isso te fez sentir?
- Você sabe, nós sempre pensamos...
- Não, não é verdade. Você nunca quis ter filhos, sempre disse que não queria ser sua mãe. Chegou a pensar em soluções definitivas, eu sugeri que conversássemos mais um pouco antes de você tomar qualquer decisão tão drástica.
- Você realmente anota tudo nesse caderninho, né?
- Sabe, eu acho que você confunde um pouco terapia com uma igreja, ou algo parecido.
- Não entendi.
- Você acha que vai fazer o que te der na cabeça fora daqui, vai ignorar tudo que conversamos, vai chegar aqui e me contar tudo e eu simplesmente vou te receitar algumas coisas, umas aves marias ou coisa parecida e você vai sair daqui leve e absolvida. Não é assim que funciona. Eu acho que você conseguiu não mudar absolutamente nada a seu respeito desde que entrou aqui a primeira vez.
- Você tem certeza de que isso é apropriado para uma terapeuta?
- Talvez não seja, Marilia. Mas eu já estou me sentindo incapaz de fazer qualquer coisa por você. E eu preciso te dizer isso, não dá pra simplesmente continuar aceitando seu dinheiro sem que esse trabalho surta nenhum efeito. É pelos remédios?
- Claro que não!
- Você não pode continuar vivendo nessa fantasia. Esse mundo incrível em que você não comete erros e todo mundo que se relaciona com você é tão mal caráter, sabe? Você parece só manter por perto quem bate palma pra você dançar.
- Você acabou de me chamar de maluca?
- Claro que não, isso seria completamente inadequado.
- Ah tá! ISSO seria inadequado.
- Ok. Você acha que eu estou errada?
- Não sei.
- Você acha que eu estou errada?
- Não. Mas...
- Você tem medo de ficar sozinha.
- E se eu for honesta?
- Algumas pessoas talvez te deem as costas. Mas outras podem ficar. Você não prefere assim?
- Não sei.
- Não te cansa fingir ser outra pessoa? Pior. Não te cansa fingir ser tantas pessoas? Porque seus amigos veem uma versão de você que seus pais sequer conhecem, e nenhuma delas é real. A não ser que...
- Que o que?
- Que você também tenha uma personagem pra mim.
- Não.
- Não?
- Não, aqui eu sou eu mesma. Acho que você gritaria comigo se eu fingisse qualquer coisa.
- Que absurdo.
- O que você quer que eu faça?
- Que você fale a verdade.
- Sobre?
- Por que você está aqui?
- Porque ele não morreu.
- Oi?
- Quando eu terminei com ele. Ele disse que ia morrer sem mim. Mas ele não morreu. Ele encontrou outra. Ele se casou. Eles tiveram um filho. E eu nem posso saber se o menino é lindo ou se ele é vesgo, porque ele me bloqueou em todas as redes sociais, eu não tenho acesso a ele.
- E você o culpa?
- Não.
- Marilia, o que você tem a ver com a vida dele?
- Não deveria ter sido tão fácil ele viver sem mim.
- Você nunca gostou dele, essa moça, a esposa dele, deve gostar. Eles constituiram família. A vida deles é deles e não tem absolutamente nada a ver com você. Já se passaram 5 anos, Marilia. Desculpa eu te dizer isso, mas o mundo não gira em torno de você.
- Certeza mesmo de que esse seu método é aceitável?
- Nós tentamos abordagens mais suaves e olha no que deu.
- E o que eu faço?
- Você precisa desapegar dessas vidas paralelas, dessas suas fantasias e começar a lidar com a realidade. Mesmo que ela seja menos colorida do que esses mundos que você inventou pra viver. Precisa contar a verdade pra quem te cerca e arcar com as consequências.
- E se eu não quiser?
- Eu terei de recomendar que você procure outro terapeuta.
- Mas...
- Desculpa, eu não posso continuar. É frustrante pra mim também.
- E se eu não estiver pronta?
- Você pode ir um de cada vez. Seus amigos, seus pais, seu namorado. Mas você precisa começar. Você tem 35 anos, Marilia. E sua vida quase inteira foi perdida nessa brincadeira.
- ...
- Pode chorar.
- Você vai me abandonar.
- Não vire a mesa.
- Não estou...
- Está sim. Quase 7 anos. Fora os 56 que eu mesma já vivi.
- Ok. Você é uma cretina.
- Somos duas então.
- ...
- A diferença é que eu estou sendo uma cretina pro seu bem.
- Isso é...
- Olha! Acabou nosso tempo. Tenho outro paciente, ele já deve estar esperando. Me liga semana que vem pra marcar a próxima sessão.
- Eu odeio você.
- Considerando que todos esses anos você viveu se odiando, fico feliz com a novidade. Até a próxima sessão. Carlos! Vamos entrar? Tchau, Marilia.
- Visita. Visita. Não sei se gosto muito desse seu deboche, doutora. Talvez por isso tenha ficado tanto tempo longe.
- Pouco provável, se bem te conheço, deve ter algo que está atiçando sua ansiedade.
- Você realmente acha que me conhece muito, né?
- Bom, são anos sendo sua terapeuta. Seis anos, talvez?
- Quase sete.
- Perfeito. Quase sete. A que devo essa consulta? Qual é a emergência?
- O Du.
- O que tem ele?
- Ah, você sabe. Minhas amigas me mandaram mensagem pra comentar sobre a esposa dele, que eles estavam em Paris ou coisa parecida. Justo Paris.
- O que tem Paris?
- Nós sempre pensamos em viajar pra lá.
- Hum.
- O que?
- Muita gente pensa em viajar pra lá. Não é exatamente como se você tivesse exclusividade nisso. Paris.
- Você é meio insensível, né?
- Pode ser. Mas não nesse caso. Há quanto tempo vocês estão separados?
- 5 anos.
- Pois é. 5 anos.
- E?
- Quem foi que terminou?
- Eu.
- E por que?
- Porque eu tava cansada dele.
- Pois é. E?
- E o que?
- Continua, Marilia.
- O que?
- Continua, Marilia.
- Ok. Eu nunca gostei dele como ele gostava de mim.
- É isso?
- Eu nunca gostei dele. Eu fiquei com ele porque ele gostava de mim e eu nunca gostei da ideia de estar sozinha.
- Não é melhor você falar isso em voz alta?
- Não.
- Talvez por isso nós estejamos há quase 7 anos em uma conversa que mais parece aquele filme, o Dia da Marmota.
- Não sei se essa sua abordagem é muito ortodoxa.
- Interessante.
- O que?
- O quanto você odeia ser confrontada.
- Isso não é verdade.
- O que suas amigas pensam disso tudo?
- Que ele é um cretino.
- Por que?
- Por causa de tudo que ele fez comigo, é claro.
- E o que ele fez contigo?
- Isso não vem ao caso.
- É mesmo?
- Bom, elas acham que ele me abandonou quando soube que eu estava grávida.
- Um momento. Eu não lembro de ter anotado isso aqui. Grávida?
- Sim.
- Pulamos essa conversa?
- Não. Eu não estive grávida.
- E?
- Eu não queria que elas soubessem que eu tenho pavor da ideia de morrer sozinha que nem minha mãe e minha tia.
- Então é melhor mentir?
- Grande merda, elas não iam continuar falando com ele mesmo, que diferença faz?
- Meu Deus, Marilia...
- Eu acho que você está exagerando, sabe?
- Ok. E seus pais?
- O que é que tem?
- O que eles pensam disso tudo?
- Bom, meu pai acha que ele é um canalha por ter me largado, é claro.
- Por causa do bebê?
- Pirou? Você realmente acha que eu ia deixar meu pai pensar que eu tava grávida?
- Só falta você me dizer que ele ainda acha que você é virgem.
- ...
- Mesmo com vocês tendo morado juntos?
- ...
- Hum. Sua mãe?
- Eu nunca tive que dizer nada pra ela. Ele foi embora e ela entendeu que eu era a vítima. Como ela foi.
- Claro. Da última vez que você veio aqui havia um rapaz na sua vida.
- Sim, o Beto.
- E?
- Estamos namorando.
- E o que ele pensa sobre essa sua obsessão com seu ex?
- Que obsessão, doutora?
- O que ele pensa?
- Ele não sabe. Tudo que ele sabe é que minhas amigas gostam muito mais dele do que daquele canalha.
- Ok. Ainda não entendi exatamente o que te trouxe aqui, já que você insiste que não tem nenhum problema. Não pode ser só Paris.
- Não. Ele vai ser pai. Já é, na verdade. O filho dele nasceu essa semana. No dia em que eu te liguei.
- E como isso te fez sentir?
- Você sabe, nós sempre pensamos...
- Não, não é verdade. Você nunca quis ter filhos, sempre disse que não queria ser sua mãe. Chegou a pensar em soluções definitivas, eu sugeri que conversássemos mais um pouco antes de você tomar qualquer decisão tão drástica.
- Você realmente anota tudo nesse caderninho, né?
- Sabe, eu acho que você confunde um pouco terapia com uma igreja, ou algo parecido.
- Não entendi.
- Você acha que vai fazer o que te der na cabeça fora daqui, vai ignorar tudo que conversamos, vai chegar aqui e me contar tudo e eu simplesmente vou te receitar algumas coisas, umas aves marias ou coisa parecida e você vai sair daqui leve e absolvida. Não é assim que funciona. Eu acho que você conseguiu não mudar absolutamente nada a seu respeito desde que entrou aqui a primeira vez.
- Você tem certeza de que isso é apropriado para uma terapeuta?
- Talvez não seja, Marilia. Mas eu já estou me sentindo incapaz de fazer qualquer coisa por você. E eu preciso te dizer isso, não dá pra simplesmente continuar aceitando seu dinheiro sem que esse trabalho surta nenhum efeito. É pelos remédios?
- Claro que não!
- Você não pode continuar vivendo nessa fantasia. Esse mundo incrível em que você não comete erros e todo mundo que se relaciona com você é tão mal caráter, sabe? Você parece só manter por perto quem bate palma pra você dançar.
- Você acabou de me chamar de maluca?
- Claro que não, isso seria completamente inadequado.
- Ah tá! ISSO seria inadequado.
- Ok. Você acha que eu estou errada?
- Não sei.
- Você acha que eu estou errada?
- Não. Mas...
- Você tem medo de ficar sozinha.
- E se eu for honesta?
- Algumas pessoas talvez te deem as costas. Mas outras podem ficar. Você não prefere assim?
- Não sei.
- Não te cansa fingir ser outra pessoa? Pior. Não te cansa fingir ser tantas pessoas? Porque seus amigos veem uma versão de você que seus pais sequer conhecem, e nenhuma delas é real. A não ser que...
- Que o que?
- Que você também tenha uma personagem pra mim.
- Não.
- Não?
- Não, aqui eu sou eu mesma. Acho que você gritaria comigo se eu fingisse qualquer coisa.
- Que absurdo.
- O que você quer que eu faça?
- Que você fale a verdade.
- Sobre?
- Por que você está aqui?
- Porque ele não morreu.
- Oi?
- Quando eu terminei com ele. Ele disse que ia morrer sem mim. Mas ele não morreu. Ele encontrou outra. Ele se casou. Eles tiveram um filho. E eu nem posso saber se o menino é lindo ou se ele é vesgo, porque ele me bloqueou em todas as redes sociais, eu não tenho acesso a ele.
- E você o culpa?
- Não.
- Marilia, o que você tem a ver com a vida dele?
- Não deveria ter sido tão fácil ele viver sem mim.
- Você nunca gostou dele, essa moça, a esposa dele, deve gostar. Eles constituiram família. A vida deles é deles e não tem absolutamente nada a ver com você. Já se passaram 5 anos, Marilia. Desculpa eu te dizer isso, mas o mundo não gira em torno de você.
- Certeza mesmo de que esse seu método é aceitável?
- Nós tentamos abordagens mais suaves e olha no que deu.
- E o que eu faço?
- Você precisa desapegar dessas vidas paralelas, dessas suas fantasias e começar a lidar com a realidade. Mesmo que ela seja menos colorida do que esses mundos que você inventou pra viver. Precisa contar a verdade pra quem te cerca e arcar com as consequências.
- E se eu não quiser?
- Eu terei de recomendar que você procure outro terapeuta.
- Mas...
- Desculpa, eu não posso continuar. É frustrante pra mim também.
- E se eu não estiver pronta?
- Você pode ir um de cada vez. Seus amigos, seus pais, seu namorado. Mas você precisa começar. Você tem 35 anos, Marilia. E sua vida quase inteira foi perdida nessa brincadeira.
- ...
- Pode chorar.
- Você vai me abandonar.
- Não vire a mesa.
- Não estou...
- Está sim. Quase 7 anos. Fora os 56 que eu mesma já vivi.
- Ok. Você é uma cretina.
- Somos duas então.
- ...
- A diferença é que eu estou sendo uma cretina pro seu bem.
- Isso é...
- Olha! Acabou nosso tempo. Tenho outro paciente, ele já deve estar esperando. Me liga semana que vem pra marcar a próxima sessão.
- Eu odeio você.
- Considerando que todos esses anos você viveu se odiando, fico feliz com a novidade. Até a próxima sessão. Carlos! Vamos entrar? Tchau, Marilia.
sábado, 19 de outubro de 2013
O projeto
- Mari?
- Oi, amor.
- Eu fui tentar pegar uma roupa no armário agora e percebi que tem um bloqueio na frente das gavetas.
- Hum.
- Tem algum motivo pra isso?
- Aaaaah! Sim, sim, claro.
- Você pretende me contar?
- Pera um segundo, tenho que terminar de mexer essa mistura na panela.
- O que você tá fazendo?
- Brigadeiro.
- Hum.
- Pronto. Então, Zeca. Eu tô com um projeto.
- Lá vem.
- Fica quieto.
- Tá.
- Eu vou resolver os problemas de decoração da casa.
- Com rolos de papel higiênico e caixas de papel?
- Aham.
- Tem maconha nesse brigadeiro?
- HA HA HA.
- Acho uma pergunta válida.
- Não, José Carlos. Eu tô com tudo desenhado na minha cabeça e ainda por cima serei sustentável. Você deveria se orgulhar da minha iniciativa, em vez de ficar debochando de mim.
- Mari, isso é tipo aquela vez em que você resolveu que ia fazer tricô pra economizar nas roupas de frio?
- Pode falar, mas você adora aquele poncho que eu fiz pra você.
- É um cachecol.
- A receita do poncho era impossível e o cachecol ficou lindo.
- Cabe só no cachorro, mas é lindo mesmo.
- Ele arrasa quando passeia no inverno, eu vejo a inveja nos outros cachorrinhos.
- Claro. Teve também a vez em que você resolveu que ia fazer geléia em casa, porque as que tinham no mercado eram muito cheias de açúcar e sei lá mais o que.
- Você adorou as geléias que eu fiz!
- A geléia. A geléia. Você jogou mais fruta fora do que conseguiu botar nos potinhos.
- Tá bom, Zeca. Tá bom.
- Mas tava gostosa. Eu jamais teria pensado que geléia de fruta do conde ficaria boa.
- Eu sou criativa.
- Tipo quando você decidiu que todos os móveis da casa seriam de pallet e caixa de feira. Acho que eu guardei os desenhos pro sofá em algum lugar...
- Se a gente não tivesse achado aquela super liquidação de móveis naquela loja nossa sala seria motivo de conversa entre todos os amigos.
- Com certeza.
- O que você está insinuando,\José Carlos? Eu senti o deboche nessa sua entonação.
- Mari?
- Que?
- Por que você não admite que seus projetos são furados?
- Que absurdo!
- Sério, meu amor. Você é engenheira, qual o problema de admitir que você é melhor com números do que com origami?
- Dessa vez vai ser diferente.
- Por que?
- Porque eu achei um blog.
- Ai, cacete.
- É sério. Ele tem todos os passos explicadinhos do que fazer, com vídeos e fotos. É demais.
- Que porra de blog é esse?
- Esse aqui, ó.
- Aaaaaaaaaaaah!
- Que?
- Você não vai acreditar.
- O que?
- É uma coincidência engraçada.
- O que?
- Esse blog.
- Ahm.
- É da minha ex. A Carol.
- Carol Marques é a sua Carol Marques?
- Aham.
- Hum.
- Que?
- Que dia é hoje mesmo?
- Quarta.
- Gente, que coincidência.
- O que?
- É dia de passar o caminhão da coleta seletiva. Deixa eu aproveitar pra botar aquela papelada toda na lixeira antes que eles passem. Nossa! Já são 9h, deixa eu correr!
- Oi, amor.
- Eu fui tentar pegar uma roupa no armário agora e percebi que tem um bloqueio na frente das gavetas.
- Hum.
- Tem algum motivo pra isso?
- Aaaaah! Sim, sim, claro.
- Você pretende me contar?
- Pera um segundo, tenho que terminar de mexer essa mistura na panela.
- O que você tá fazendo?
- Brigadeiro.
- Hum.
- Pronto. Então, Zeca. Eu tô com um projeto.
- Lá vem.
- Fica quieto.
- Tá.
- Eu vou resolver os problemas de decoração da casa.
- Com rolos de papel higiênico e caixas de papel?
- Aham.
- Tem maconha nesse brigadeiro?
- HA HA HA.
- Acho uma pergunta válida.
- Não, José Carlos. Eu tô com tudo desenhado na minha cabeça e ainda por cima serei sustentável. Você deveria se orgulhar da minha iniciativa, em vez de ficar debochando de mim.
- Mari, isso é tipo aquela vez em que você resolveu que ia fazer tricô pra economizar nas roupas de frio?
- Pode falar, mas você adora aquele poncho que eu fiz pra você.
- É um cachecol.
- A receita do poncho era impossível e o cachecol ficou lindo.
- Cabe só no cachorro, mas é lindo mesmo.
- Ele arrasa quando passeia no inverno, eu vejo a inveja nos outros cachorrinhos.
- Claro. Teve também a vez em que você resolveu que ia fazer geléia em casa, porque as que tinham no mercado eram muito cheias de açúcar e sei lá mais o que.
- Você adorou as geléias que eu fiz!
- A geléia. A geléia. Você jogou mais fruta fora do que conseguiu botar nos potinhos.
- Tá bom, Zeca. Tá bom.
- Mas tava gostosa. Eu jamais teria pensado que geléia de fruta do conde ficaria boa.
- Eu sou criativa.
- Tipo quando você decidiu que todos os móveis da casa seriam de pallet e caixa de feira. Acho que eu guardei os desenhos pro sofá em algum lugar...
- Se a gente não tivesse achado aquela super liquidação de móveis naquela loja nossa sala seria motivo de conversa entre todos os amigos.
- Com certeza.
- O que você está insinuando,\José Carlos? Eu senti o deboche nessa sua entonação.
- Mari?
- Que?
- Por que você não admite que seus projetos são furados?
- Que absurdo!
- Sério, meu amor. Você é engenheira, qual o problema de admitir que você é melhor com números do que com origami?
- Dessa vez vai ser diferente.
- Por que?
- Porque eu achei um blog.
- Ai, cacete.
- É sério. Ele tem todos os passos explicadinhos do que fazer, com vídeos e fotos. É demais.
- Que porra de blog é esse?
- Esse aqui, ó.
- Aaaaaaaaaaaah!
- Que?
- Você não vai acreditar.
- O que?
- É uma coincidência engraçada.
- O que?
- Esse blog.
- Ahm.
- É da minha ex. A Carol.
- Carol Marques é a sua Carol Marques?
- Aham.
- Hum.
- Que?
- Que dia é hoje mesmo?
- Quarta.
- Gente, que coincidência.
- O que?
- É dia de passar o caminhão da coleta seletiva. Deixa eu aproveitar pra botar aquela papelada toda na lixeira antes que eles passem. Nossa! Já são 9h, deixa eu correr!
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Compras
- Alô?
- Oi, amor.
- Só pra avisar que eu vou passar no mercado antes de ir pra casa, vou comprar o jantar.
- Opa, qual será o cardápio?
- Não sei ainda, depende do que eu encontrar no mercado.
- Como assim?
- Te explico mais tarde, te amo.
- Também te amo, linda.
...
- Amor?
- Oi! Tá em casa?
- Não, tô no mercado ainda.
- Eu já tô chegando, me atrasei um pouco, mas tô chegando. Aconteceu alguma coisa? Tem duas horas que a gente se falou, achei que já estivesse atrasado pro jantar.
[lágrimas contidas] - Ai...
- O que aconteceu, Ju? Tá tudo bem?
- Você sabia que tem glicose na mostarda?
- Que?
- Tem glicose na mostarda. E açúcar. E aquele molho de tomate que eu sempre comprava porque dizia na embalagem que era mais saudável, com menos sei lá o que? Glutamato monossódico.
- Ju, onde você tá?
- No mercado.
- Chorando?
- Éééééééé... [lágrimas declaradas]
- Ju.
- Que?
- Vai pra casa?
- Beto, você sabe o mal que farinha de trigo faz?
- Cara, o que você tá falando?
- Eu li uma matéria.
- Puta que pariu.
- Que?
- Você e essas matérias.
- É sério. É uma pesquisa. Eles explicam que tomar suco de fruta todo dia aumenta o risco de diabetes.
- Ah, fudeu.
- Eu tô falando sério!
- Aham, agora não pode mais tomar suco de fruta.
- Claro que pode, mas não todo dia.
- Ju. Vai. Pra. Casa. Porra.
- Beto, eu não fiz as compras ainda.
- MAS VOCÊ TÁ HÁ DUAS HORAS NA PORRA DO MERCADO, TÁ FAZENDO O QUE ESSE TEMPO TODO, CARA?
- Tava lendo os rótulos. E VOCÊ PARA DE GRITAR COMIGO!
- Ok. Eu paro. Mas você vai largar esses rótulos e vai pra casa agora. Eu tô com fome.
- Eu não consegui comprar o jantar, vou cozinhar o que?
- Não tô mandando você ir pra casa pra cozinhar, só quero que você venha pra gente decidir junto o que vai comer.
- Ah, que merda.
- Que?
- Estraguei tudo, era pra ser uma surpresa, ia fazer costelinha no barbecue pra você, mas eu vi tudo que tinha no molho e decidi fazer eu mesma. Não deve ser difícil, né?
- E é?
- Não, mas tenta achar uma mostarda sem açúcar e sem glicose. E um molho sem glutamato. E cara, você já viu o tanto de sódio que tem nas coisas?
- Que coisas?
- TUDO!
- Juliana?
- Roberto?
- Chega.
- Mas amor...
- Chega.
- Tá.
- Vem pra casa?
- Eu vou. Mas posso te pedir uma coisa?
- Claro.
- Pede uma pizza?
- Oi, amor.
- Só pra avisar que eu vou passar no mercado antes de ir pra casa, vou comprar o jantar.
- Opa, qual será o cardápio?
- Não sei ainda, depende do que eu encontrar no mercado.
- Como assim?
- Te explico mais tarde, te amo.
- Também te amo, linda.
...
- Amor?
- Oi! Tá em casa?
- Não, tô no mercado ainda.
- Eu já tô chegando, me atrasei um pouco, mas tô chegando. Aconteceu alguma coisa? Tem duas horas que a gente se falou, achei que já estivesse atrasado pro jantar.
[lágrimas contidas] - Ai...
- O que aconteceu, Ju? Tá tudo bem?
- Você sabia que tem glicose na mostarda?
- Que?
- Tem glicose na mostarda. E açúcar. E aquele molho de tomate que eu sempre comprava porque dizia na embalagem que era mais saudável, com menos sei lá o que? Glutamato monossódico.
- Ju, onde você tá?
- No mercado.
- Chorando?
- Éééééééé... [lágrimas declaradas]
- Ju.
- Que?
- Vai pra casa?
- Beto, você sabe o mal que farinha de trigo faz?
- Cara, o que você tá falando?
- Eu li uma matéria.
- Puta que pariu.
- Que?
- Você e essas matérias.
- É sério. É uma pesquisa. Eles explicam que tomar suco de fruta todo dia aumenta o risco de diabetes.
- Ah, fudeu.
- Eu tô falando sério!
- Aham, agora não pode mais tomar suco de fruta.
- Claro que pode, mas não todo dia.
- Ju. Vai. Pra. Casa. Porra.
- Beto, eu não fiz as compras ainda.
- MAS VOCÊ TÁ HÁ DUAS HORAS NA PORRA DO MERCADO, TÁ FAZENDO O QUE ESSE TEMPO TODO, CARA?
- Tava lendo os rótulos. E VOCÊ PARA DE GRITAR COMIGO!
- Ok. Eu paro. Mas você vai largar esses rótulos e vai pra casa agora. Eu tô com fome.
- Eu não consegui comprar o jantar, vou cozinhar o que?
- Não tô mandando você ir pra casa pra cozinhar, só quero que você venha pra gente decidir junto o que vai comer.
- Ah, que merda.
- Que?
- Estraguei tudo, era pra ser uma surpresa, ia fazer costelinha no barbecue pra você, mas eu vi tudo que tinha no molho e decidi fazer eu mesma. Não deve ser difícil, né?
- E é?
- Não, mas tenta achar uma mostarda sem açúcar e sem glicose. E um molho sem glutamato. E cara, você já viu o tanto de sódio que tem nas coisas?
- Que coisas?
- TUDO!
- Juliana?
- Roberto?
- Chega.
- Mas amor...
- Chega.
- Tá.
- Vem pra casa?
- Eu vou. Mas posso te pedir uma coisa?
- Claro.
- Pede uma pizza?
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
A caneca
Vinicius entrou em casa pra encontrar Mariana sentada num canto do sofá, aos prantos.
- Amor? Ce tá bem?
- Eu - soluço - nãããããããããão!!!! - agudo.
- Calma, Mari! O que aconteceu?
- Eu - mais soluços - iiiiiiiiiiiiiiiiih - ruído incompreensível.
- Respira. Calma. Respira.
Mariana respirou. Tomou fôlego. Quinze minutos depois, já aconchegada no peito de Vinicius, declarou:
- Eu quebrei sua caneca.
- Minha...
- Ai, amor, eu tava lavando a louça e fui mexer na pilha que você deixou no canto da pia e eu já liguei pra minha mãe e...
- Pera. A caneca que meu pai me deu?
- É, deixa eu terminar de arrumar a mala.
- Mari, senta. Pra que você vai arrumar mala?
- Eu vou ficar na mamãe, eu quebrei sua caneca.
Vinicius riu.
- Cara, você acha o que? Que a gente vai brigar? Que eu vou, sei lá, TERMINAR com você?
- Você amava a caneca.
- Mas eu amo você bem mais.
- Awn. Você não tá bravo?
- Não. Eu tô PUTO. Tô puto pra caralho. Mas, cara. Era uma caneca, sabe?
- Ai, amor, desculpa. Te amo, eu tava tentando fazer uma coisa bonita, legal, só fiz merda.
- Tranquilo. Mas por que você tava lavando louça?
- A Lurdes não veio. Disse que o neto tava com dor de dente.
- Entendi. Bom. Talvez seja interessante comprar uma máquina de lavar, hein?
- Ai, jura? Eu até vi umas tão legais na internet...
- Depois manda o link. Vamos ver o preço.
- Tá!
Vinicius se dirigiu à cozinha, pra avaliar o estrago, se despedir da caneca, essas coisas.
- Amor?
- Oi!
- Você me trouxe flores.
- Trouxe.
- Por que?
- Como assim por que?
- Não é data especial, não é meu aniversário, nem aniversário de namoro, nem nada demais.
- Ahm.
- O que você fez?
- Como?
- O que você fez?
- Mariana, você realmente tem a cara de pau de sugerir que eu teria te trazido flores pra encobrir alguma coisa errada? Qual o seu problema?
- Você nunca me dá flores, Vinicius. Coisa boa não deve ser.
- Quer saber, Mariana? Eu vou dar uma volta.
- Mas você acabou de chegar.
- Pra você ver. Tchau.
- Amor?
- Que? - Perguntou já com a porta aberta, um pé fora de casa e o outro prestes a seguir.
- Eu tô sem calcinha.
- Tem um vinho na geladeira, pera. Vou abrir.
Vinicius fechou a porta e foi lamentar a caneca quebrada.
Ou quase isso.
- Amor? Ce tá bem?
- Eu - soluço - nãããããããããão!!!! - agudo.
- Calma, Mari! O que aconteceu?
- Eu - mais soluços - iiiiiiiiiiiiiiiiih - ruído incompreensível.
- Respira. Calma. Respira.
Mariana respirou. Tomou fôlego. Quinze minutos depois, já aconchegada no peito de Vinicius, declarou:
- Eu quebrei sua caneca.
- Minha...
- Ai, amor, eu tava lavando a louça e fui mexer na pilha que você deixou no canto da pia e eu já liguei pra minha mãe e...
- Pera. A caneca que meu pai me deu?
- É, deixa eu terminar de arrumar a mala.
- Mari, senta. Pra que você vai arrumar mala?
- Eu vou ficar na mamãe, eu quebrei sua caneca.
Vinicius riu.
- Cara, você acha o que? Que a gente vai brigar? Que eu vou, sei lá, TERMINAR com você?
- Você amava a caneca.
- Mas eu amo você bem mais.
- Awn. Você não tá bravo?
- Não. Eu tô PUTO. Tô puto pra caralho. Mas, cara. Era uma caneca, sabe?
- Ai, amor, desculpa. Te amo, eu tava tentando fazer uma coisa bonita, legal, só fiz merda.
- Tranquilo. Mas por que você tava lavando louça?
- A Lurdes não veio. Disse que o neto tava com dor de dente.
- Entendi. Bom. Talvez seja interessante comprar uma máquina de lavar, hein?
- Ai, jura? Eu até vi umas tão legais na internet...
- Depois manda o link. Vamos ver o preço.
- Tá!
Vinicius se dirigiu à cozinha, pra avaliar o estrago, se despedir da caneca, essas coisas.
- Amor?
- Oi!
- Você me trouxe flores.
- Trouxe.
- Por que?
- Como assim por que?
- Não é data especial, não é meu aniversário, nem aniversário de namoro, nem nada demais.
- Ahm.
- O que você fez?
- Como?
- O que você fez?
- Mariana, você realmente tem a cara de pau de sugerir que eu teria te trazido flores pra encobrir alguma coisa errada? Qual o seu problema?
- Você nunca me dá flores, Vinicius. Coisa boa não deve ser.
- Quer saber, Mariana? Eu vou dar uma volta.
- Mas você acabou de chegar.
- Pra você ver. Tchau.
- Amor?
- Que? - Perguntou já com a porta aberta, um pé fora de casa e o outro prestes a seguir.
- Eu tô sem calcinha.
- Tem um vinho na geladeira, pera. Vou abrir.
Vinicius fechou a porta e foi lamentar a caneca quebrada.
Ou quase isso.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Aniversário
- Um ano já.
Ela comentou como se fosse nada.
- Um ano? - Ele beijou-lhe o pescoço. - Verdade. Um ano...
- Passou rápido, né?
- Passou. Quem diria...
- Bom, eu diria. Eu soube desde o primeiro dia.
- Soube?
- Sim, desde aquele café. Na hora em que você cheirou meu cabelo eu soube que ia me apaixonar por você. E que você era o cara.
- Eu não cheirei seu cabelo.
- Tá.
- Sério.
- Tá.
- Tá, eu cheirei seu cabelo. - Disse afundando o rosto em seu pescoço pra repetir o momento. - Você tava tão cheirosa aquele dia. Que nem agora.
- Eu sou cheirosa.
- Eu sei.
- Mas como eu dizia, eu sempre soube.
- Eu tive minhas dúvidas.
- Hein?
- Eu jurei que a gente fosse dar errado.
- Jurou que a gente fosse dar errado? Como assim? Quando?
- Ah, lá no comecinho. A gente era muito diferente. É muito diferente.
- Diferente em que?
- Em muita coisa. Em tudo. Sei lá. Eu achei que fosse dar errado.
- Me dá um exemplo.
- Para, cara. Não vem ao caso.
- Como assim não vem ao caso? Você achou que a gente fosse dar errado!
- Mas isso foi lá no começo. Bem no começo. Tem um ano já, cara. Deixa isso pra lá.
- Claro, deixa pra lá. Eu aqui contando uma história desse relacionamento e você me diz que não é nada disso.
- Hein?
- Ah, eu sempre achei que tivesse sido amor à primeira vista, arrebatador, blablabla. Você sabe a história. Eu conto o tempo todo.
- Mas foi assim. Eu me apaixonei por você desde o café. Desde o dia em que eu não cheirei seu cabelo.
- Aham.
- Foi sim. Eu só achei que ia dar merda.
- Porra.
- Que?
- Primeiro era dar errado. Agora é dar merda.
- Qual a diferença?
- Deixa pra lá.
- Lá vem.
Silêncio.
- Psiu.
- Oi.
- Que foi?
- Nada.
- Nada é o cacete. Você tá puta.
- Tô não.
- Tá sim, te conheço. Tá quieta, tá puta.
- Nem. Tô tranquila. Só aproveitando o momento.
- Que momento?
- Tô aqui registrando mentalmente a primeira vez em que eu estive certa nesse relacionamento. E você errado. Erradíssimo, na verdade. Absolutamente errado.
- Oi?
- É. Só você mesmo pra achar que a gente não ia dar certo.
- Hahahahahaha...
- Óbvio que a gente ia dar certo.
- Você é um gênio, amor.
- Um ano.
- Verdade...
Ela comentou como se fosse nada.
- Um ano? - Ele beijou-lhe o pescoço. - Verdade. Um ano...
- Passou rápido, né?
- Passou. Quem diria...
- Bom, eu diria. Eu soube desde o primeiro dia.
- Soube?
- Sim, desde aquele café. Na hora em que você cheirou meu cabelo eu soube que ia me apaixonar por você. E que você era o cara.
- Eu não cheirei seu cabelo.
- Tá.
- Sério.
- Tá.
- Tá, eu cheirei seu cabelo. - Disse afundando o rosto em seu pescoço pra repetir o momento. - Você tava tão cheirosa aquele dia. Que nem agora.
- Eu sou cheirosa.
- Eu sei.
- Mas como eu dizia, eu sempre soube.
- Eu tive minhas dúvidas.
- Hein?
- Eu jurei que a gente fosse dar errado.
- Jurou que a gente fosse dar errado? Como assim? Quando?
- Ah, lá no comecinho. A gente era muito diferente. É muito diferente.
- Diferente em que?
- Em muita coisa. Em tudo. Sei lá. Eu achei que fosse dar errado.
- Me dá um exemplo.
- Para, cara. Não vem ao caso.
- Como assim não vem ao caso? Você achou que a gente fosse dar errado!
- Mas isso foi lá no começo. Bem no começo. Tem um ano já, cara. Deixa isso pra lá.
- Claro, deixa pra lá. Eu aqui contando uma história desse relacionamento e você me diz que não é nada disso.
- Hein?
- Ah, eu sempre achei que tivesse sido amor à primeira vista, arrebatador, blablabla. Você sabe a história. Eu conto o tempo todo.
- Mas foi assim. Eu me apaixonei por você desde o café. Desde o dia em que eu não cheirei seu cabelo.
- Aham.
- Foi sim. Eu só achei que ia dar merda.
- Porra.
- Que?
- Primeiro era dar errado. Agora é dar merda.
- Qual a diferença?
- Deixa pra lá.
- Lá vem.
Silêncio.
- Psiu.
- Oi.
- Que foi?
- Nada.
- Nada é o cacete. Você tá puta.
- Tô não.
- Tá sim, te conheço. Tá quieta, tá puta.
- Nem. Tô tranquila. Só aproveitando o momento.
- Que momento?
- Tô aqui registrando mentalmente a primeira vez em que eu estive certa nesse relacionamento. E você errado. Erradíssimo, na verdade. Absolutamente errado.
- Oi?
- É. Só você mesmo pra achar que a gente não ia dar certo.
- Hahahahahaha...
- Óbvio que a gente ia dar certo.
- Você é um gênio, amor.
- Um ano.
- Verdade...
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Classificação
Ouviu a porta abrir.
- Amor?
- Oi, amor.
- Quarta-feira. Não marca nada. Vou fazer um cachorro-quente aqui em casa, uns amigos vêm pra cá.
- Boa noite, amor. Como foi o seu dia? Tudo bem no trabalho? Também senti sua falta. Pera. Quarta? Mas quarta tem jogo! Copa do Brasil! Vale classificação, cara.
- Eu sei. Vai passar na TV. Aliás, assinei o PFC pra você.
- Oi?
- Assinei o PFC. Eu sei que você fica puto quando não acha onde ver, especialmente quando nenhum dos seus amigos topa ir naquele bar.
- Ah...
- Aliás, eles já confirmaram quarta-feira.
- Meus amigos?
- Isso. O Paulo, o Beto, o Igor.
- O Igor?
- Aham. E vai trazer a Natália.
- Natália?
- Namorada nova. Uma graça de menina.
- Eu já fiz uma lista de cervejas pra comprar. Tá tudo certo.
- Entendi.
- Tô terminando o jantar aqui. Se quiser tomar um banho antes de comer, tudo bem.
- Tá. É. Boa ideia. Vou tomar um banho.
- Ah. Amor?
- Oi?
- Eu tô grávida.
-...
- Tem sua cerveja favorita na geladeira.
- Amor?
- Oi, amor.
- Quarta-feira. Não marca nada. Vou fazer um cachorro-quente aqui em casa, uns amigos vêm pra cá.
- Boa noite, amor. Como foi o seu dia? Tudo bem no trabalho? Também senti sua falta. Pera. Quarta? Mas quarta tem jogo! Copa do Brasil! Vale classificação, cara.
- Eu sei. Vai passar na TV. Aliás, assinei o PFC pra você.
- Oi?
- Assinei o PFC. Eu sei que você fica puto quando não acha onde ver, especialmente quando nenhum dos seus amigos topa ir naquele bar.
- Ah...
- Aliás, eles já confirmaram quarta-feira.
- Meus amigos?
- Isso. O Paulo, o Beto, o Igor.
- O Igor?
- Aham. E vai trazer a Natália.
- Natália?
- Namorada nova. Uma graça de menina.
- Eu já fiz uma lista de cervejas pra comprar. Tá tudo certo.
- Entendi.
- Tô terminando o jantar aqui. Se quiser tomar um banho antes de comer, tudo bem.
- Tá. É. Boa ideia. Vou tomar um banho.
- Ah. Amor?
- Oi?
- Eu tô grávida.
-...
- Tem sua cerveja favorita na geladeira.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Engano
- Cristina?
Parou. O coração engasgou, deu um soluço. Ninguém a chamava de Cristina, exceto se fosse pra brigar com ela.
Coisa de criança.
- Cristina!
Ergueu os olhos por um segundo que mais pareceu uma eternidade e reconheceu o rosto do homem de quem tentou fugir por anos.
O relacionamento passou diante de seus olhos como um filme lento e embaraçoso.
Engoliu em seco a vergonha de ter permitido que ele abusasse tanto dela por desculpas tão porcas, por flores e chocolates de que ela nem gostava.
- Não, senhor. O senhor deve ter me confundido com alguém.
Não era mentira.
A mulher que ele procurava não estava mais ali.
Ele a tinha matado tempos atrás.
Parou. O coração engasgou, deu um soluço. Ninguém a chamava de Cristina, exceto se fosse pra brigar com ela.
Coisa de criança.
- Cristina!
Ergueu os olhos por um segundo que mais pareceu uma eternidade e reconheceu o rosto do homem de quem tentou fugir por anos.
O relacionamento passou diante de seus olhos como um filme lento e embaraçoso.
Engoliu em seco a vergonha de ter permitido que ele abusasse tanto dela por desculpas tão porcas, por flores e chocolates de que ela nem gostava.
- Não, senhor. O senhor deve ter me confundido com alguém.
Não era mentira.
A mulher que ele procurava não estava mais ali.
Ele a tinha matado tempos atrás.
sábado, 10 de agosto de 2013
Café
Juntou os grãos na palma da mão e pôs no moedor. Era a quantidade certa pra fazer café só pra ela.
Moeu fino e acomodou cuidadosamente no filtro.
Derramou a água sem pressa enquanto lembrava do dia em que aprendeu a passar café, do jeito mais tradicional.
Ou quase, já que seu porta-filtro era, como diziam as amigas, coisa fresca.
Porcelana.
Aprendeu a fazer café assim por causa delas. Se dependesse dela, fazia de qualquer jeito, menos esse. Mas elas sentiam falta de casa. E lá se fazia assim.
Aprendeu porque sentia falta de casa também e sentar com as duas pra conversar entre um pão de queijo e outro até sair o café era o mais próximo de reunião de família que ela tinha nessa nova rotina.
Saiu de casa por conta de trabalho e sentia pouco a falta da vida antiga. Mas quando batia saudade, maldita, ela vinha com força.
Conheceram-se no trabalho, as três. Cada uma de um departamento da empresa, não tinham nem porque se conhecerem naquele mundo de gente e andares, naquele arranha-céu de impessoalidade. As pessoas mal se davam bom dia, mas as três se encontraram.
Uma baiana, uma carioca e uma mineira perdidas em São Paulo. Um equívoco, foi tudo que precisaram.
Era uma tarde despretensiosa de uma quarta-feira esquisita. Daqueles dias meio feios, meio cinzas. A mãe da mineira havia mandado entregar no trabalho da filha uma peça bonita de queijo. Afinal, não era possível que aquela cidade tivesse queijo bom e ninguém merece passar tanto queijo comendo sabe-se lá o que eles entendem por queijo.
Ninguém merece.
O bilhete, na embalagem bem feita, dizia: "Carol, um beijo da mamãe."
Carol.
Vocês sabem quantas Caróis existem num prédio desses?
Pois é.
Pelo menos três.
Uma de cada canto do país. Nenhuma de lá. Não nesse caso.
A mineira chamava Caroline. A carioca, Carolina. A baiana, não me perguntem como assim porque eu não sei a história, chamava Carol mesmo. Coisa de hippie, talvez. Ou não.
O tal queijo passou por muitas mesas até achar Carol. Que achou Carolina. Que achou Caroline. Que ficou feliz. E convidou as duas pra comer queijo.
Sentaram e conversaram e comeram queijo e tomaram café e falaram da vida e de família e de amigos e de saudade.
O queijo virou hábito.
A conversa virou hábito.
O café virou hábito.
Deixou de ser só de Carolina pra ser das três Caróis.
Passado no filtro, do jeito que faziam em casa. Ou quase. Porque em casa não tinha aquela coisa fresca de porcelana.
Mas era gostoso o tal café. Era delas.
Um dia Carol conheceu Juan e foi morar em Buenos Aires. Caroline aprendeu a falar mandarim e foi arriscar a vida na China, o mercado lá tinha futuro, diziam. Carolina voltou pro Rio e foi trabalhar numa ONG. Ela sempre quis trabalhar com crianças e recebeu a proposta da vida pra desenvolver um projeto novo numa comunidade perto de onde tinha crescido.
Era arriscado, mas ela já tinha cansado de São Paulo.
Foram as palavras de Caroline antes de ir pra China que a empurraram. "Essa cidade está fazendo de mim alguém que eu não quero ser."
Uma foi pro outro lado do mundo. A outra voltou pra casa.
Ou quase. Porque a sua casa nunca tinha sido arriscada.
As coisas mudam, né?
Mas tem coisa que fica.
Tipo a saudade.
E aquela saudade tinha cheiro e vontade de café.
Moeu os grãos, botou no filtro, acrescentou a água quente devagar.
Os pingos tinham barulho das conversas e risadas de cada uma e todas elas naquela cozinha.
Falavam-se cada vez menos desde que foram cada uma prum canto, mas Carolina sentia falta delas. Tinha coisa que só dava pra contar pra elas, que só tinha graça com elas.
Estava feliz no Rio. O projeto dava certo. As pessoas eram boas e ela achava, pela primeira vez, que talvez fosse mesmo possível mudar o mundo.
Mas só depois do café.
terça-feira, 23 de julho de 2013
Então...
- Você tá proibido de morrer, tá? - Ela disse como se fosse a coisa mais natural do mundo, ou como se a conversa tivesse caminhado para tal desfecho. Na verdade estavam quietos há algum tempo na cama.
Ele já tinha quase dormido.
- Que, Aline? De onde você tirou isso?
- Lugar nenhum. Só não morre.
Um dos melhores amigos de colégio de seu irmão tinha morrido há pouco tempo e desde então ela vinha pensando nisso. Na morte. E nas pessoas que ela amava morrendo.
- Não é que eu não fosse saber viver sem você, sabe, Rafa. É só que eu não quero. Tipo. Eu amo nossa vida. Eu amo você. E eu não tô pronta pra não ter isso aqui. Não agora. Tem tanta coisa pra gente fazer.
- Tipo o que?
- Viajar pra fora do país. Adotar um cachorro. Ter um apartamento maior. Um fogão industrial pra eu fazer comida de verdade. Filhos.
- Aline, você tá tentando me dizer alguma coisa?
- Sim, que você tá proibido de morrer.
- Só isso? Sua menstruação tá em dia, né?
Silêncio.
- ALINE?
- Babaca.
- Cara, me responde.
- Eu aqui pensando na minha vida sem você e você aí tenso porque acha que eu tô dando volta pra te contar alguma coisa?
- Não seria a primeira vez.
- Não tô grávida.
- Ok.
- Mas não morre. Tá?
- Eu não posso te prometer uma coisa dessa. Ninguém sabe o dia de amanhã. Mas se eu morrer, você sabe que eu sou doador de órgãos, né? E eu quero ser cremado.
- Affe, por que você tá falando isso?
- Porra, foi você que começou!
- Mas eu não queria entrar na burocracia da sua morte. Só tava decretando que você tava proibido de morrer. Tava não. Tá.
- Ok, czarina. Estou proibido de morrer. Entendi. Mas se eu morrer, já sabe. E joga minhas cinzas no Maracanã.
- Bem seu tipinho mesmo. Fazer exatamente o contrário do que eu tô te pedindo. Beleza, vou espalhar você todo pela torcida do Fluminense.
- Justo do Fluminense, Aline? Puta que pariu!
- Sim. Se você pode morrer pra me contrariar, eu posso te condenar a passar o resto da sua vida na torcida do Fluminense.
- Ok, eu vou atormentar a torcida do teu time pra toda a eternidade. Nenhuma vassoura, nenhum aspirador de pó, merda nenhuma vai tirar a minha zica daquela torcida e a culpa vai ser sua. Tá pronta pra ser responsável pela maldição das Laranjeiras? Tá?
- Cala a boca, Rafael. Eu não quero mais falar sobre isso.
- Ótimo. Boa noite.
Silêncio.
- Amor?
- Hum?
- Tá dormindo?
- Tô.
- Tá nada, tá falando comigo.
- Fala, Aline.
- Você vai casar de novo se eu morrer?
- Nem vem que eu não vou cair nessa, não vou responder essa merda nem fudendo.
- Affe. Tá. Mas você tá proibido de morrer.
Ele já tinha quase dormido.
- Que, Aline? De onde você tirou isso?
- Lugar nenhum. Só não morre.
Um dos melhores amigos de colégio de seu irmão tinha morrido há pouco tempo e desde então ela vinha pensando nisso. Na morte. E nas pessoas que ela amava morrendo.
- Não é que eu não fosse saber viver sem você, sabe, Rafa. É só que eu não quero. Tipo. Eu amo nossa vida. Eu amo você. E eu não tô pronta pra não ter isso aqui. Não agora. Tem tanta coisa pra gente fazer.
- Tipo o que?
- Viajar pra fora do país. Adotar um cachorro. Ter um apartamento maior. Um fogão industrial pra eu fazer comida de verdade. Filhos.
- Aline, você tá tentando me dizer alguma coisa?
- Sim, que você tá proibido de morrer.
- Só isso? Sua menstruação tá em dia, né?
Silêncio.
- ALINE?
- Babaca.
- Cara, me responde.
- Eu aqui pensando na minha vida sem você e você aí tenso porque acha que eu tô dando volta pra te contar alguma coisa?
- Não seria a primeira vez.
- Não tô grávida.
- Ok.
- Mas não morre. Tá?
- Eu não posso te prometer uma coisa dessa. Ninguém sabe o dia de amanhã. Mas se eu morrer, você sabe que eu sou doador de órgãos, né? E eu quero ser cremado.
- Affe, por que você tá falando isso?
- Porra, foi você que começou!
- Mas eu não queria entrar na burocracia da sua morte. Só tava decretando que você tava proibido de morrer. Tava não. Tá.
- Ok, czarina. Estou proibido de morrer. Entendi. Mas se eu morrer, já sabe. E joga minhas cinzas no Maracanã.
- Bem seu tipinho mesmo. Fazer exatamente o contrário do que eu tô te pedindo. Beleza, vou espalhar você todo pela torcida do Fluminense.
- Justo do Fluminense, Aline? Puta que pariu!
- Sim. Se você pode morrer pra me contrariar, eu posso te condenar a passar o resto da sua vida na torcida do Fluminense.
- Ok, eu vou atormentar a torcida do teu time pra toda a eternidade. Nenhuma vassoura, nenhum aspirador de pó, merda nenhuma vai tirar a minha zica daquela torcida e a culpa vai ser sua. Tá pronta pra ser responsável pela maldição das Laranjeiras? Tá?
- Cala a boca, Rafael. Eu não quero mais falar sobre isso.
- Ótimo. Boa noite.
Silêncio.
- Amor?
- Hum?
- Tá dormindo?
- Tô.
- Tá nada, tá falando comigo.
- Fala, Aline.
- Você vai casar de novo se eu morrer?
- Nem vem que eu não vou cair nessa, não vou responder essa merda nem fudendo.
- Affe. Tá. Mas você tá proibido de morrer.
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